No orfanato “Casa do Gaiato”

Os Arautos do Evangelho estiveram presentes por duas ocasiões no estabelecimento Católico voltado para o apoio a crianças necessitadas de origem portuguesa “Casa do gaiato”.

A convite da coordenadora religiosa do local, a Irmã Quitéria, proveniente do Brasil e que há 23 anos realiza este trabalho, a fanfarra dos Arautos em Moçambique animou a missa onde foram batizadas 30 meninas educadas e catequizadas pela instituição, no dia 8 deste mês, e no dia 16  realizaram uma apresentação musical, a “volta ao mundo em 7 músicas”, onde foram interpretadas músicas locais, européias e brasileiras às mais de 200 crianças auxiliadas pela intituição, juntamente a seus professores.

Em ambas as ocasiões foram numerosas as manifestações de alegria e entusiasmo das crianças, que deixaou a muitos dos presentes emocionados.

A Obra do Padre Américo, mais conhecida como Casa do Gaiato, é uma instituição particular de solidariedade social com sede em Paço de Sousa (Porto), fundada pelo Padre Américo Monteiro de Aguiar em 1940, e que tem como objetivo acolher, educar e integrar na sociedade crianças e jovens que, por qualquer motivo, se viram privados de meio familiar normal.

A Obra organiza-se em casas onde acolhe rapazes desde a mais tenra infância até cerca dos 25 anos. A população média de cada casa é de 150 rapazes. Tem casas em Portugal, Angola e Moçambique

Trinta batismos no Sábado Santo

Era impossível não contagiar-se com a alegria dos moçambicanos na Capela. Músicas jubilosas, decorações festivas, batizandos revestidos com as mais belas roupas brancas, padrinhos engalanados ao lado de seus afilhados. E sobretudo uma felicidade irradiante estampada na fisionomia de todos. Tudo concorria para tornar a cerimônia do Sábado Santo solene e cheia de graças.

Não podia ser diferente. Ademais de ser a Vigília de Páscoa, máxima festa para os católicos, trinta jovens estavam para ingressar na fileira para tornarem-se novos filhos  de Deus, membros da Santa Igreja, herdeiros do céu!

E realmente, era sensível o quanto Deus estava comprazido com aquilo. A cada batismo feito pelo Revmo. Pe. Arão Otílio Gabriel Mazive, EP, via-se uma luz resplandecer na face dos que foram batizados. 

Os Arautos do Evangelho estiveram presentes na cerimônia, encarregando-se do canto do precônio pascal e do cerimonial.

O desabrochar da Igreja Católica em Moçambique

       Tudo teve sua gênese de modo tão incipiente, qual um grão de mostarda! E ninguém, naqueles remotos tempos em que a primeira semente do Cristianismo fora lançada no solo moçambicano, poderia suspeitar o seu desenvolvimento e  a sua máxima expansão nos instantes atuais.

         Corria o ano da graça de 1498 em que os intrépidos portugueses: o navegador  Vasco da Gama, acompanhado por alguns frades e capelães, que seguiam nas naus singrando  os mares em busca das terras firmes da Índia, e entre as intempéries e as incertezas que, em diversas ocasiões foram  os seus companheiros, escrevia Deus sem sinuosidade o destino da Igreja de Moçambique nos seus primórdios, tendo como seu marco inaugural a celebração Eucarística, em Latim, no dia 11 de Março do ano acima referido, na Ilha de São Jorge, junto à Ilha de Moçambique. Não consta que a evangelização propriamente dita começasse imediatamente a seguir à celebração da primeira Missa, porém, estava lançada a primeira semente…

      Em Goa, o jesuíta Pe. Gonçalo da Silveira, depois de ouvir falar de contatos feitos com a corte do Monomotapa e com o rei de Tonga, em Inhambane, ofereceu-se para trabalhar em Moçambique. Aos dias 5 de Fevereiro de 1560, juntamente com os companheiros Pe. André Fernandes e Irmão André da Costa, chegaram a Moçambique. Aqui foram batizadas cerca de 300 pessoas.

       Em 1577 chegaram à Ilha de Moçambique, vindos de Goa, os Dominicanos. Construíram na Ilha um convento e, a partir daqui, alargaram a sua ação até Sofala, Sena e Tete. Os Dominicanos iam, também, rezar a Missa à Cabeceira, lugar de terra firme em frente da Ilha de Moçambique, onde ainda hoje se pode apreciar um templo em estilo indo-português. Por seu turno, em 1607, o Monomotapa Gasse Lucere – monarca de Moçambique na época – na sequência de um tratado de amizade, pedia missionários ao rei de Portugal para evangelizarem as suas terras. Desta feita registou-se um tal fluxo de graças que culminou nos dias actuais: com a Igreja alicerçada em todo Moçambique! Como corolário disso, pode-se dizer que, está instaurada a civilização, posto que a Igreja é a detentora do bem, do belo e da verdade, e onde Ela se faz presente, comunica o bom odor de Jesus Cristo que é o real sentido da vida. Como agradecer a Portugal pelo indescritível tesouro que nos deixaram: A Igreja!

 

 

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Escravo dos africanos para sempre!

“Escravo dos africanos para sempre”, foi o programa de vida desse jovem missionário jesuíta que batizou mais de 300 mil negros escravos ao longo de 35 anos de labor apostólico: São Pedro Claver.

Daremos início a uma série de artigos sobre a admirável vida de um homem de Deus que decidiu fazer-se missionário especialmente para levar até Deus a raça africana, o jesuíta São Pedro Claver. Vemo-lo sempre representado em suas imagens com um jovem negro junto a si, mostrando-lhe um crucifixo para ser osculado, como símbolo de seu trabalho apostólico: levar os negros a abraçar a cruz de Cristo, e através Dele, receber todos os benefícios da fé católica, os melhores que possam existir.

Certo dia da segunda metade do ano do Senhor de 1610, as grandes e amareladas velas do galeão “São Pedro” eram recolhidas e suas âncoras tocavam o fundo de uma bela baía. A tripulação inteira abeirava-se do parapeito e contemplava com curiosidade e admiração acidade de Cartagena, na província da Nova Granada (atual Colômbia), que se apresentava deslumbrante diante dos seus olhos, com suas enormes muralhas de pedra branca brilhando sob o causticante sol tropical. O azul profundo do céu refletiase nas águas mansas e cálidas do porto, onde se balançava graciosamente um sem-número de embarcações de todo tipo e tamanho.

Dentre a pitoresca multidão de marinheiros e passageiros que se apressavam em desembarcar do galeão recém-chegado, destacavam- se singularmente as negras batinas de quatro religiosos: três sacerdotes e um noviço da ordem fundada, não havia muito tempo, por Inácio de Loyola: a Companhia de Jesus. Dos três presbíteros, a História não perpetuou os nomes. Religiosos desconhecidos, como centenas de milhares que imolaram suas vidas seguindo os passos do Mestre Divino, anônimos para os homens e filhos prediletos de Deus. O noviço, porém, de fisionomia austera, silencioso, um tanto retraído e quase passando despercebido, marcou com sua vida a história da América do Sul e brilhará para sempre no firmamento da Igreja: São Pedro Claver.

A aurora de uma vocação

Nascido em Verdú, pequena cidade espanhola da Catalunha, em 1580, Pedro Claver sentiu- se chamado para a vida religiosa desde tenra infância. Aos 22 anos de idade, bateu às portas do noviciado da Companhia de Jesus.

Dois anos mais tarde, a fim de completar os estudos de Filosofia, foi enviado por seus superiores ao Colégio de Montesion, na ilha de Maiorca. Deuse, então, um providencial encontro que marcaria de modo indelével a vida de Pedro e firmaria definitivamente sua vocação.

Nesse colégio habitava um venerável ancião, simples irmão coadjutor e porteiro da casa, que séculos depois seria canonizado e viria a ser uma das glórias da Ordem: Santo Alonso Rodríguez.

Desde o primeiro instante em que os límpidos olhos do santo porteiro penetraram o coração do noviço, discerniu o ancião a vocação do jovem e um profundo e sobrenatural relacionamento uniu então aquelas duas almas.

“O que devo fazer para amar verdadeiramente a Nosso Senhor Jesus Cristo?” – perguntava o estudante. E Santo Alonso não se contentava em dar um simples conselho, mas descortinava os ilimitados horizontes da generosidade e do holocausto: “Quantos que vivem ociosos na Europa, poderiam ser apóstolos na América! Não poderá o amor de Deus sulcar esses mares que a cobiça humana soube cruzar? Não valem também aquelas almas a vida de um Deus? Por que tu não recolhes o Sangue de Jesus Cristo?” As ardentes palavras do velho porteiro acenderam labaredas de zelo que acabariam por consumir o coração de Pedro Claver.

Nessa época, o irmão Alonso foi favorecido por Deus com uma mística visão: sentiu-se arrebatado até o Céu onde contemplou incontáveis tronos ocupados pelos bem-aventurados e, no meio deles, um trono vazio. Escutou uma voz que lhe dizia: “É este o lugar preparado para teu discípulo Pedro, como prêmio de suas muitas virtudes e pelas inúmeras almas que converterá nas Índias, com seus trabalhos e sofrimentos”. 

Missionário e sacerdote

No dia 23 de janeiro de 1610, o superior provincial, atendendo a seus pedidos, enviou-o como missionário à tão anelada América do Sul. E no final desse mesmo ano, após longa travessia, aportou na cidade de Cartagena, uma das mais importantes do Império Espanhol do além-mar.

Terminada sua formação teológica na casa de formação dos jesuítas na província da Nova Granada, recebeu finalmente o Sacramento da Ordem no dia 19 de março de 1616 e celebrou sua primeira Missa diante da imagem da Virgem dos Milagres a quem professaria sempre uma ardorosa e filial devoção. (Continua em próximo artigo…)

 (Revista Arautos do Evangelho, Set/2005, n. 45, p. 20 à 23)