Apelo às missões!

Hoje escrevemos aos estimados visitantes de nosso blog para chamar-lhes a atenção acerca de algo muito importante: quantas vezes o senhor, a senhora ou você, jovem ou moça que lêem estes artigos, preocuparam-se pelas missões na África? Já rezaram ao menos uma Ave-Maria por aqueles homens e mulheres, sacerdotes, religiosos e religiosas que abandonaram sua pátria e sua famílias para levar os benefícios da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana a esses povos que ainda iniciam seu caminho rumo à conversão e à edificação de uma civilização Católica?

Bem, se já rezaram, agradecemos-lhe de coração e damos os nossos parabéns; se ainda não pensaram, ou não rezaram, terão hoje uma bela oportunidade, lendo o que se segue:

Um dos missionários dos Arautos do evangelho em Moçambique, proveniente do Brasil sempre teve muito apreço a um ensinamento teológico que afirma que Nosso Senhor Jesus Cristo teria padecido tudo quanto padeceu na Paixaõ para salvar uma alma somente, que necessitasse desse resgate. Por outro lado, Mons. João S. Clá Dias,EP, seu Fundador, na formação de seus filhos espirituais, em suas homilias e conversas, constantemente inculca a compenetração de como devem ter o máximo empenho pela salvação das almas, como vemos nesses seus comentários à parábola do bom pastor:

“É um aspecto fundamental a ser tratado na liturgia de hoje: as noventa e nove que perseveram; as nove que restaram. E isto para nós é fundamental uma vez que nossa vocação é de salvar tudo e o todo, tudo e todos. E, portanto, noventa e nove mais um. Nós queremos cem. Nove mais uma. Queremos dez. Queremos tudo! Nada de deixando as noventa e nove e as nove por si; quando nós voltamos tem sete, ou tem setenta. Não, nós queremos a que saiu, e mais todas que ficaram”.[1]

Talvez esse jovem arauto nunca tivesse compreendido bem esta oração, nem estas palavras de seu fundador, se não tivesse acontecido com ele o que aconteceu: após um longo período de auxílio pastoral em diversos lugares do Brasil, foi chamado pela voz da obediência a ir evangelizar, desta vez mais longe:na África!

Portanto, esse artigo tem como escopo levar àqueles que o lerem a voltarem seus olhos para esse continente para o qual Deus reserva um desígnio, promete um futuro promissor, cheio de bençãos, se almas houverem que rezem por ele, preocupem-se com ele, e por que não? Se lançem na gloriosa tarefa de evangelizá-lo. Assim como desejava São Francisco Xavier, conforme escrevia a seu pai espiritual, Santo Inácio, estando a evangelizar na Índia:

“Veio-me muitas vezes ao pensamento ir pela academias da Europa, paricularmente a de Paris, e por toda parte gritar como louco e sacudir aqueles que têm mais ciência do que caridade, clamando: ‘oh! Como é enorme o número dos que, excluídos do céu, por vossa culpa se precipitan nos infernos!’Quem dera que se dedicassem a essa obra com o mesmo interesse com que se dedicam às letras”[2].

Tão ardoroso foi o desejo do santo, tão convincente essa verdade por ele proclamada, que de fato, sua missiva chegou a ser reproduzida em diversas universidades da Europa, e com isso floresceram inúmeros evangelizadores para o auxílio do padroeiro das missões[3].

Se Nosso Senhor disse que “haverá maior júbilo no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que perseveram” (Lc 15, 7), qual não deve ser o empenho de todos os católicos em converter esses milhares de belas almas africanas, que esperam e anseiam a que venham pastores e mestres que as auxiliem e instruam?

As respostas para todas essas perguntas, deixaremos para o coração de cada leitor, que se julgar oportuno, poderá nos fazer partícipes delas…


 

[1]CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Deus como que se inebria em salvar-nos. Não lhe ponhamos obstáculos. Homilia 5 Nov. 2009 (Arquivo ITTA-IFAT).

[2] XAVIER, Francisco. Carta a Santo Inácio de Loyola .In: Liturgia da Horas. São Paulo: Vozes, 1999. Vol. I, p. 1028.

[3] Cfr. DUFOUR, Xavier Léon. San Francisco Xavier- Itinerário místico del apóstol. Burgos: Mensajero, 1998. p. 44-45.

 

O coração que tanto amou os homens!

Ah! Se as almas soubessem como as espero cheio de misericórdia! Sou o Amor dos amores! E não posso descansar senão perdoando!

Estou sempre esperando com amor que as almas venham a Mim! Venham!… Atirem-se nos meus Braços! Não tenham medo! Conheço o fundo das almas, suas paixões, sua atração pelo mundo e pelos prazeres. Sei, desde toda a eternidade, quantas almas me hão de encher o Coração de amargura e que, para grande número, meus sofrimentos e meu sangue serão inúteis! Mas, como as amei, assim as amo…

Sagrado Coraçao de Jesus

Não é o pecado que mais fere meu Coração… O que O despedaça é não quererem as almas refugiar-se em Mim depois de o terem cometido. Sim, desejo perdoar e quero que minhas almas escolhidas dêem a conhecer ao mundo como meu Coração, transbordando de amor e de misericórdia, espera os pecadores.

Queria também mostrar às almas que nunca lhes recuso a minha graça, nem mesmo quando estão carregadas dos mais graves pecados, e que não as separo então daquelas que amo com predileção. Guardo-as todas no meu Coração, para dar a cada uma os socorros que o seu estado reclama. Queria dar-lhes a compreender que não é pelo fato de estarem em pecado mortal que devem afastar-se de Mim. Não julguem que já não há remédio para elas e que nunca mais serão amadas como o foram outrora! Não, pobres almas, não são estes os sentimentos de um Deus que derramou todo o seu sangue por vós!

Vinde a Mim e não temais, porque Eu vos amo! Purificar-vos-ei no meu sangue e vos tornareis mais brancas que a neve. Os vossos pecados serão mergulhados nas águas da minha misericórdia e não será possível arrancar do meu Coração o amor que vos tenho.

Vós, que estais mergulhados no mal e que há mais ou menos tempo viveis errantes e fugitivos por causa de vossos crimes… se os pecados de que sois culpados vos endureceram e cegaram o coração; se, para satisfazerdes às vossas paixões, caístes nos piores escândalos… ah! Quando vossa alma reconhecer o seu estado, e os motivos ou os cúmplices de vossas faltas vos abandonarem não deixeis que de vós se apodere o desespero. Enquanto tiver o homem um sopro de vida, poderá ainda recorrer à misericórdia e implorar perdão. Vosso Deus não consentirá que vossa alma seja presa do inferno.

Pelo contrário, deseja, e com ardor, que d’Ele vos aproximeis para vos perdoar. Se não ousais falar-Lhe, dirigi para Ele vossos olhares e os suspiros do vosso coração e em breve vereis que sua mão bondosa e paternal vos conduz à fonte do Perdão e da Vida!

Desejo que as almas creiam na minha misericórdia, esperem tudo da minha bondade e não duvidem nunca do meu perdão. Sou Deus, mas Deus de amor! Sou Pai, mas Pai que ama com ternura e não com severidade.

Meu Coração é infinitamente sábio, mas também infinitamente santo, e como conhece a miséria e a fragilidade humanas, inclina-se para os pobres pecadores com misericórdia infinita. Amo as almas depois que cometeram o primeiro pecado, se vêm pedir humildemente perdão. Amo-as ainda, quando choraram o segundo pecado e, se isso se repetir, não digo um bilhão de vezes, mas milhões de bilhões. Amo-as e perdôo-lhes sempre, e lavo no mesmo sangue o último como o primeiro pecado!

Não me canso das almas, e o meu Coração sempre espera que venham refugiar-se n’Ele, por mais miseráveis que sejam. Não tem um pai mais cuidado com filho que é doente, do que com os que têm boa saúde? Para com este filho, não são maiores as suas delicadezas e a sua solicitude. Assim também o meu Coração derrama sobre os pecadores, com mais liberalidade do que sobre os justos, a sua compaixão e a sua ternura.

Dêem-me o seu amor e nunca desconfiem do meu, e sobretudo me dêem a sua confiança e não duvidem da minha misericórdia. É fácil esperar tudo do meu Coração!” (1)

Assim falou o Divino Redentor. Assim continua a nos falar, com o mesmo entranhado e infinito amor de Pai e de Deus. Procuremos ouvi-Lo, esforcemo-nos em seguir o seu carinhoso apelo, em depositar n’Ele essa confiança completa de filhos que tudo podem alcançar das infinitas misericórdias de um Coração onipotente.

Roguemos a Maria Santíssima, Mãe deste Sagrado Coração, que interceda por nós junto a Ele, a fim de que essa Fornalha ardente de caridade “nunca cesse de iluminar o horizonte da vida de cada um de nós, aqueça nossos próprios corações e nos faça abrir nossas almas para o seu amor que é eterno e nunca se consome. O único amor capaz de transformar o mundo e a vida humana” (João Paulo II, Meditações da Ladainha do Sagrado Coração de Jesus, junho de 1985).

(“Sagrado Coração de Jesus, Tesouro de Bondade e Amor”, Mons. João Clá Dias, EP)

O Menino Jesus no hospital!

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No último dia 21, o Hospital Geral da Machava em Maputo, Moçambique,
celebrou a Natividade do Menino Jesus.

Para esta iniciativa, além da Diretora do Hospital, concorreram
inúmeras pessoas, tais como o Sacerdote Capelão, Pe. Amine CM, as
Irmãs Religiosas e muitos voluntários que se dedicam a esteh3
estabelecimento que é voltado para o combate a tuberculose,
enfermidade que ceifa muitas vidas neste país.

Realizada em um dos salões do Hospital, iniciou-se a Santa Missa, da
qual participaram a Direção, diversos médicos, enfermeiros e
funcionários, como também aqueles doentes cujo estado lhes
possibilitava estar presentes.

Arautos em África
Entretanto, como a maior parte dos doentes não puderam sair de seus
leitos, as zelosas Irmãs, seguidas pelos Arautos do Evangelho com sua
Banda Musical, dirigiram-se às várias enfermarias levando o Menino
Jesus àqueles que sofrem. Nesta ocasião, após uma breve oração,
deixavam uma medalha ou uma estampa com cada um. Assim, mesmo os mais
enfermos, puderam de alguma forma participar do Natal do Senhor e de
suas alegrias.

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Na enfermaria das crianças houve uma festa própria à sua idade: uma

grande sala toda enfeitada com bolas coloridas e diversos adornos;
mesas repletas de saborosas iguarias era um espetáculo que regalava a
todos.

Uma peregrinação de três horas por S. Clemente!

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Na última semana do passado ano litúrgico a Igreja fez memória de São
Clemente, Papa. Sendo um dos primeiros sucessores de São Pedro, seu
pontificado se situa entre os anos 92 e 101 da era cristã.
Em Moçambique, na Paróquia Sagrada Família da Machava, um Núcleo que o
tem como padroeiro, quis celebrá-lo com muito entusiasmo, promovendo
uma semana inteira com diversas atividades na Comunidade onde se
reúnem.

Para encerramento da comemoração escolheram a Casa de Formação dos
Arautos. Assim, às 6:00 da manhã partiram em procissão desde a
Comunidade até chegarem à nossa Casa. Foram 3 horas de caminhada.

arautos_africa_monsenhor

Tendo depositado o quadro do padroeiro no altar da Capela, houve um
pequeno intervalo para recuperarem as forças e darem continuidade ao
programa determinado.

Assim, ao longo do dia, entre as muitas atividades, houve a recitação
do terço, coroação de Nossa Senhora, Santa Missa celebrada pelo
Pároco Frei Juracy, um período de convívio e, por fim – sendo véspera
do dia de Nossa Senhora das Graças – deu-se a projeção do
Audio-visual da Medalha Milagrosa.

Em seguida todos receberam a
medalha milagrosa para implorarem sempre o auxílio daquela que é a
Medianeira de todas as graças.

MARIA, MÃE DA UNIDADE

inicio

Peregrinação anual da Legião de Maria ao Santuário de Namaacha

O que é mais belo: contemplar Maria durante os 9 meses em que tivera a felicidade de levar o próprio  Deus, ou nela pensar circundada pelos apóstolos em busca de diretrizes para sua missão?   A experiência de Deus em Nossa Senhora ou a transmissão dessa experiência em benefício de muitos?

Não querendo dar algum parecer de momento, deixamos esta questão em aberto à devoção de cada um. Cumpre-nos apenas dizer que os dois aspectos constituíram a realidade vivenciada por Nossa Senhora, no passado dia 15 de  outubro, no Santuário de Namaacha,  por ocasião da peregrinação anual da Legião de Maria.

Filhas de Maria_Arautos do Evangelho

Na sua homilia, o  Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maputo, Dom João Carlos, fez uma meditação do tema da  peregrinação,  Maria, Mãe da Unidade e mostrou o quanto a presença de um não dispensa a outra. ‘’ De facto, dizia ele, a verdadeira unidade que tanto almejamos tem como fonte o próprio Deus. E Maria Santíssima como santuário e templo da Santíssima Trindade, ela, em sua humanidade puríssima, experimentou, como mulher, os efeitos do mistério eterno da unidade trinitária em seu seio, em sua alma, em todo o seu ser.  Ela pôde unir-se como ninguém à dinâmica de amor, das três pessoas da Trindade. Deste modo ela foi e é, templo da Unidade mais perfeita do qual jorra a fonte de toda a unidade: a Santíssima Trindade, as três pessoas distintas na perfeita unicidade, um só Deus.’’

E ainda: ‘’É próprio do amor querer se unir, estar junto, estar em comunhão, ser um em comunidade. Maria também o demonstrou, ao regressar à casa com o discípulo amado que o seu Filho a entregou, ao conviver com os apóstolos na crucifixão, ao aguardar em oração no Cenáculo junto com os apóstolos, a descida do Espírito Santo; quis se fazer presente em todos os momentos do nascimento da Igreja, e o quer até os dias de hoje, quando se torna medianeira nossa de todas as graças’’.

Arautos do Evangelho

Ao término da celebração que contou com milhares de Legionárias, todos voltaram às suas casas  imersos naquele clima todo sobrenatural do dias de convívio sob a presença de Maria Santíssima, revigorados na sua fé  e com a determinação de fazerem com que muitos outros possam se beneficiar destas bênçãos.

Dirson Castigo Machaieie

A despedida do Padre Rômulo

A Obra Dom Orione em Moçambique celebrou no dia 14 último – festa da exaltação da Santa Cruz – a despedida de seu Reitor, Pe. Rômulo, que por ordem de seus superiores deve ocupar outras funções que dispõe essa grande messe.

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Após 3 anos de intensas atividades no sentido de trazer o bem-estar aos enfermos – nos quais o Cotolengo conheceu verdadeiros progressos tanto na atenção dispensada aos doentes como no melhoramento de seus domicílios e até na manutenção geral – cede ele o lugar ao Pe. José
Geraldo, cessante pároco da paróquia São João Bosco do Bagamoio, a qual por sua vez, estará ao encargo do Pe. Paulino, que esteve como missionário em Quénia.
Após a Missa de despedida, foi entronizada a imagem da Virgem Maria numa pequena gruta preparada quase ao centro do recinto, a quem tanto os visitantes como os visitados do Cotolengo dirigirão a sua primeira saudação.
Depois da entronização de Nossa Senhora, houve um breve espaço de convívio que foi seguido da despedida. Enquanto muitas mãos se abanavam em sinal de adeus, de alguns rostos corriam as lágrimas, enfim, todos manifestando benquerença ao Pe. Rômulo.

Dirson Castigo

Sofia e Edi a verdadeira alegria!

Gaudium Press – Espirtualidade

 

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Sofia e Edi Eles apareceram de repente. Estávamos perto da estrada de ferro que levava à antiga Transvaal, na cidade de Maputo.

 Tarde ensolarada e cheia de luz como frequentemente são as da capital moçambicana. Eu acompanhava um missionário Arauto que mora na cidade. Fomos levar as nossas roupas para lavar, numa senhora que presta esse serviço já há algum tempo. Nosso carro parou junto a uma casa, ao lado da linha férrea. Muita gente caminhava, por ali, bordejando aqueles trilhos: trazendo objetos na cabeça ou nas mãos, com roupas coloridas, olhos vivos e alegres. Era fim do dia. Fim, muitas vezes nos lembra decadência, tristeza, decomposição.

Lá não! Havia qualquer coisa de esperança, de futuro dentro daquele panorama onde a luz fugia e ao mesmo tempo brilhava. Sobretudo isso se acentuou quando vi os dois pequenos interlocutores: Sofia e Edi.

Enquanto meu companheiro entrou na casa para deixar o material, fiquei sozinho na carrinha – expressão portuguesa que designa uma perua que utilizamos para o nosso apostolado. Já velha, branca, com o adesivo de nosso escudo de um e de outro lado de ambas as portas da frente.

As duas crianças chegaram sem fazer barulho e sorriam sempre. A princípio um pouco tímidas e depois falantes, abertas e simpáticas: características do povo moçambicano. Estavam encantadas com o escudo da Virgem Maria. Passavam suas pequenas mãos sobre ele e me olhavam com curiosidade.

– Qual é seu nome? Indaguei. – Numa voz cantante: Sofia! A menina era só sorriso, olhos grandes, pequenas tranças caiam de sua cabeça adornada por minúsculas flores, de cor branca.

 – E o seu? Ao menino. – Edi. Apesar de ser mais novo, era mais forte e também vivo e inteligente.

 – Quantos anos têm? Sofia fez um gesto com os dedos da mão direita, mostrando cinco pequenos dedos. O menino errou primeiro, e depois resoluto fez sinal que eram quatro. Perguntei-lhes sobre a religião: quem era Maria, se já sabiam fazer o sinal da cruz, onde moravam. Eles muito prestativos respondiam, com alegria, com sorriso franco. Nosso diálogo foi breve, pois o motorista havia chegado e partimos.

 Ficou-me na lembrança as mãos dos pequenos que se agitavam no ar e a pureza feliz daquelas almas, que se alegraram com tão pouca coisa: algumas palavras e um pouco de afeto.

 O carro tomou a direção de nossa casa, no bairro de Nhencobe, e os dois pequenos me traziam uma indagação: por que tanta alegria? A resposta saltou mais que evidente: “O cristão segue o Senhor quando aceita com amor a sua cruz”.

 A alegria que não passa, só Deus pode conceder. O sucesso social e o bem estar não bastam. Mas é o misterioso caminho da cruz, que proporciona a verdadeira felicidade. Isso explica, apesar de tantas dificuldades e carências materiais em que meus pequenos protagonistas estavam inseridos, a felicidade que viviam.

Traziam em seus pequenos corações a chama da fé, da inocência, do amor à cruz sem saber explicá-lo por causa de suas tenras idades, mas eram felizes. Irradiavam felicidade, naquela tarde luminosa…

Lucas Miguel Lihue

Do Brasil a Moçambique

De toda a atuação dos Arautos do Evangelho, partir para terras de missão
é o que mais atrai seus membros. Moçambique é um destino
cobiçado por todos.

A Catedral da Sé de São Paulo está repleta de fiéis que esperam o início de uma celebração. Um toque de trompete corta o leve burburinho e a Catedral_.jpgmovimentação de pessoas que ainda procuram um lugar sentado, antes da cerimônia. Principia então um solene cortejo, precedendo a imagem peregrina do Imaculado Coração de Maria, que será em seguida coroada simbolicamente, enquanto os fiéis aclamam calorosamente a Rainha dos Céus. Esse ato constitui a abertura da devoção dos Primeiros Sábados, que os Arautos do Evangelho promovem na Catedral da Sé.

Após a coroação de Nossa Senhora, sucedem-se a recitação do terço, a meditação de 15 minutos e a Celebração Eucarística, enquanto as numerosas filas de confissão avançam vagarosamente, conduzindo os fiéis à reconciliação com Deus.

São muitas as pessoas que, de passagem pelo centro da cidade, entram nessa grandiosa igreja, atraídas pela movimentação ou, simplesmente, para apreciar a bela arquitetura do edifício sagrado, sendo surpreendidas por essa cerimônia de raro esplendor.

Encantados pela beleza da liturgia e da música, ou por um discreto convite da graça, muitos se deixam ficar, a fim de assistir a todo o ato. E logo nasce a pergunta: quem são esses jovens? O que fazem? Como vivem?

Uma vida dedicada à evangelização

Ao tomar contato com os arautos pela primeira vez, numa cerimônia litúrgica, dificilmente se pode ter idéia de todas as atividades evangelizadoras levadas a efeito pela instituição, que qualquer um dos consagrados, que ali participam de uma cerimônia tão solene, está disposto a empreender.

   Arautos_Cooperadores.jpg  
    Cooperadores dos Arautos do Evangelho
 

Essa disposição é mais viva, é claro, entre os que constituem o ramo sacerdotal, destinado mais especificamente ao anúncio do Evangelho, e à administração dos mistérios divinos, na liturgia. Mas os desafios de nosso tempo nos levam a utilizar o maior número de meios ao alcance, para levar a Palavra a todos os homens, sem exceção, pois nossa sociedade está cada vez mais secularizada, ou seja, mais afastada de Deus e da Igreja.

Foi essa uma das razões que levaram o episcopado latino-americano, na 5ª Conferência do CELAM a lançar a grande missão continental.

Como chegar àquele que está tantas vezes próximo, mas muito distante de Deus, é um problema que não se reduz à simples transposição de um espaço. Há uma distância entre o coração do homem e o Infinito, que nem sempre é fácil de transpor… Precisa- se do auxílio da graça divina, a qual se serve com freqüência de instrumentos humanos ou materiais.

É com esse intuito, de serem simples instrumentos de Deus, que os arautos desenvolvem suas atividades evangelizadoras: as visitas da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima aos lares, o Apostolado do Oratório do Imaculado Coração de Maria, a divulgação de publicações religiosas, de estampas, medalhas, CDs de música e a própria revista Arautos do Evangelho.

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Espírito Missionário

No entanto, na alma dos arautos ressoam continuamente as palavras de Nosso Senhor aos Apóstolos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Esse mandato vibra com mais intensidade ainda naqueles que receberam as ordens sagradas, pois lhes foi impresso na alma, pelo Espírito Santo, ao lhes serem impostas as mãos, no Sacramento da Ordem. Partir em missão para terras distantes, a fim de exercerem o seu ministério sacerdotal e anunciar a Boa Nova, é para eles a maior felicidade nesta terra.

Arautos na África

Moçambique, na África austral, é uma dessas terras de missão onde os Arautos do Evangelho desenvolvem sua atividade. O fato de ser um dos países mais pobres do mundo, devido aos conflitos armados que assolaram o país durante décadas, não constitui obstáculo ao surgimento de numerosas vocações entre os jovens, os quais manifestam grande avidez de sobrenatural. E, como sempre ocorre em circunstâncias análogas, “a messe é grande, mas os operários são poucos” (Mt 9, 37). Dificuldade acrescida, ainda, pelas enormes carências materiais do país.

 MOÇAMBIQUE1.jpg  Adoraçao ao Santissimo Sacramento_.jpg  
 Arautos em Procissão com a imagem do Imaculado
Coração de Maria
  Arautos do Evangelho cantam em louvor ao Santíssimo Sacramento
Arautos de Maputo

Para os Arautos do Evangelho moçambicanos, onde encontrar os meios materiais para atender as centenas de jovens que são catequizados por eles, nas escolas de Maputo, a capital? E como dar formação religiosa e cultural aos vocacionados, que aspiram a uma vida de consagrados ou, mesmo, ao sacerdócio?

Pequenas e grandes dificuldades

Para nós que vivemos no mundo ocidental, habituados às pequenas comodidades da sociedade moderna, ao alcance da mão em qualquer loja ou supermercado, talvez não seja tão evidente o que significa ir para uma terra de missão, recentemente saída de uma guerra civil. Desde a alimentação precária (carne, ovos, peixe, constituem artigos de luxo e o nosso indispensável cafezinho uma raridade), proliferação de malária e de outras epidemias, dificuldades de transporte (percorrer 10 km a pé, ou mais, para ir à missa, não é considerada uma longa viagem) até a falta de algo tão comum para nós como um simples cobertor, nas frias noites de inverno, são algumas das dificuldades que é preciso suportar com naturalidade.

O Continente da Esperança

Mas para um coração sacerdotal, todas essas carências se reduzem à mínima expressão diante da grandiosidade e dos mistérios do continente africano, do vasto campo das almas a cuidar, e da avidez de sobrenatural daqueles povos. Talvez por isso o saudoso Papa João Paulo II tenha sido levado a qualificar a África como o Continente da Esperança.

Assim que chegou à casa dos arautos, em Maputo, o sacerdote arautos pôde medir a vastidão das necessidades. De imediato, teve de dar assistência a duas igrejas próximas – Mastrong e Nossa Senhora da Assunção – cujos párocos se ausentariam para fazer o retiro anual. Nova dificuldade se apresentou: embora o português seja a língua oficial, muitos só falam as línguas nativas, e a homilia teve de ser traduzida para o xangane, pois o padre apenas sabe dizer zixilii (bom dia). Porém, quando a fé do povo é grande, a diversidade de línguas ou raças deixa de ser uma barreira.

 Missa Maputo.jpg  Africa distribuiçao de Medalhas.jpg  Arautose em Africa_.jpg
Eucaristia em Maputo celebrada por um
Sacerdote arauto
  Um Sacerdote arauto distribui medalhas
de Nossa Senhora a população

Arautos de Maputo tocam em uma procissão

Além das paróquias, o sacerdote arauto teve de cuidar, também, dos arautos. Tanto dos que já vivem em comunidade na academia, onde fazem seus estudos (são cerca de 60), como os que são catequizados através do “Projeto Futuro e Vida”, nas escolas secundárias de Maputo e nas paróquias. Celebrar Missa, atender confissões, dar formação doutrinária aos jovens são atividades que ocupam largamente o dia a dia, pouco tempo sobrando para a celebração da Liturgia das Horas, adoração ao Santíssimo Sacramento e demais orações quotidianas.

O Surgimento de vocações

Para um sacerdote, é praticamente impossível restringir seu ministério aos limites do próprio instituto. Um novo carisma na Igreja é sempre um fator de atração para os fiéis, pois mais sensivelmente se nota a ação do Espírito Santo que os suscita. Foi o que ocorreu com a visita ao Arcebispo de Maputo, D. Francisco Chimoio, O.F.M. Cap. Afavelmente acolhido por D. Francisco, logo se seguiu o convite para dar um contributo ao Seminário Maior, dando palestras sobre a nova evangelização através da mídia. Tema que interessou vivamente os cerca de 100 seminaristas, por constituir um constante desafio para a Igreja de nosso tempo.

Também entre os arautos, o missionário sacerdote, que pertence aos arautos, encontrou um bom número de chamados para o sacerdócio. Mas, com a alegria de descobrir promissoras vocações para a Igreja, vieram as dificuldades e apreensões. Não seria melhor levar alguns para serem formados na Casa-Mãe dos arautos, em São Paulo? Ou, pelo contrário, seria preferível concentrar os esforços na África, apesar das carências locais? Uma e outra solução têm suas vantagens e desvantagens. De qualquer forma, o encontro com o carisma originário é de um benefício insuperável.

Foi por isso que Pe. Hamilton, ao tomar contato com a pujança de fé dos moçambicanos, optou por enviar 13 desses jovens ao Brasil, graças à abnegação de generosos doadores, a fim de fazerem uma experiência vocacional. Sem dúvida, esse intercâmbio é benéfico também para quem acolhe os visitantes, e convive com essa fé que não está maculada pelas dúvidas do racionalismo.

A África é ainda uma terra quase virgem onde a semente da fé não deu seus melhores frutos, prenunciados pela beleza e grandiosidade de sua natureza agreste, mas cheia de colorido e vida. Para que essas sementes frutifiquem é necessário regá-las com muita abnegação e oração.

A todos quantos sentirem inspiração de rezar por esses jovens, que nos próximos meses farão sua experiência vocacional, e por tantos outros que não puderam vir, por falta de recursos, eles agradecem essas valiosas orações, para que a África, de Continente da Esperança, passe a ser um continente transbordante de fé, e exemplo de catolicidade para o mundo inteiro.

(Revista Arautos do Evangelho, Out/2007, n. 70, p. 16 à 21)

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Moçambique

O moço rico do Evangelho

EVANGELHO

17 “Tendo Ele saído para Se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dEle, suplicou-Lhe: ‘Bom Mestre, que farei para alcançar a vida eterna?’. 18 Jesus disse-lhe: ‘Por que Me chamas bom? Só Deus é bom. 19 Conheces os Mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’. 20 Ele respondeu-Lhe: ‘Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade’. 21 Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: ‘Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me’. 22 Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens. 23 E, olhando Jesus em derredor, disse a seus discípulos: ‘Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!’. 24 Os discípulos ficaram assombrados com Suas palavras. Mas Jesus replicou: ‘Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas! 25 É mais fácil passar o camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus’. 26 Eles ainda mais se admiravam, dizendo a si próprios: ‘Quem pode então salvar-se?’. 27 Olhando Jesus para eles, disse: ‘Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível’. 28 Pedro começou a dizer-Lhe: ‘Eis que deixamos tudo e Te seguimos’. 29 Respondeu-lhe Jesus. ‘Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de Mim e por causa do Evangelho 30 que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna'” (Mc 10, 17-30).

Pórtico do Mosteiro de Montserrat, Barcelona (Espanha)

Aquele que chegara correndo e se ajoelhara sôfrego diante de Nosso Senhor, retirou-se triste e abatido de Sua presença. Preferiu conservar os seus bens terrenos, desprezando – fato inédito no Evangelho – o “tesouro no Céu” oferecido pelo próprio Deus.

Mons. João Clá Dias, E.P.

I – Fomos criados com uma vocação

Desde toda a eternidade, esteve prevista na mente divina a criação, no tempo, de Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto homem,1 e de Sua Mãe, Maria Santíssima.2

Mas Deus não concebeu ambos isoladamente. Queria Ele que, à maneira de uma corte, houvesse quem os servisse. Todos nós estávamos incluídos nesse ato de pensamento e fomos amados por Ele como foi revelado a Jeremias: “Eu amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor” (Jr 31, 3).

Nosso Senhor é o modelo tomado por Deus para a nossa criação, é Ele a nossa causa exemplar. Havendo de tornar possível, por Seus méritos, a nossa existência enquanto filhos de Deus, pois “todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça” (Jo 1, 16), constitui-Se em nossa causa eficiente. E, por termos sido criados para servi-Lo e adorá-Lo, é também a nossa causa final.

Fomos, em suma, concebidos em, por e para Jesus, pois “nEle foram criadas todas as coisas nos Céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1, 16).

Isto configura um chamado feito a nós desde todo o sempre, tal como afirma o Apóstolo: “Deus nos salvou e chamou para a santidade, não em atenção às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio, da graça que desde a eternidade nos destinou em Cristo Jesus” (II Tm 1, 9). Deus nos convida a fazer parte da Santa Igreja, e nos chama à santidade. Mas, junto com esse apelo genérico, somos chamados a exercer uma função específica dentro do Corpo Místico de Cristo. É uma missão que cada um tem particularmente e não será dada a mais ninguém.

O Novo Testamento nos apresenta inúmeros exemplos no chamado feito pelo próprio Jesus aos escolhidos para serem Seus Apóstolos: vê Mateus na coletoria de impostos e lhe diz: “Segue-Me” (Mt 9, 9); no caminho de Damasco, São Paulo é lançado por terra e, ao ouvir a voz que o interpelava, responde: “Senhor, que quereis que eu faça?” (At 9, 6); cheio de pasmo após a pesca milagrosa, Pedro se prosterna diante do Mestre, exclamando: “Retira-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”, e escuta a divina promessa: “Doravante, serás pescador de homens” (cf. Lc 5, 8-10).

Tal como Mateus, Paulo ou Pedro, que tudo abandonaram imediatamente para seguir o Mestre, precisamos responder com prontidão, generosidade e alegria ao chamado que Jesus faz a cada um de nós.

Este é o ensinamento contido no Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum, como veremos a seguir.

II – O episódio do jovem rico

São Marcos, tão sintético em outras passagens, mostra-se minucioso ao narrar o episódio do jovem rico. Já o primeiro versículo contém interessantes pormenores dignos de especial atenção.

17 “Tendo Ele saído para Se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dEle, suplicou-Lhe: ‘Bom Mestre, que farei para alcançar a vida eterna?'”.

Procura sôfrega do caminho da salvação

Pelo fato de vir “correndo” ao encontro de Nosso Senhor, podemos supor o quanto esse “alguém” estava sôfrego de obter aquilo que ia pedir. Certamente ouvira a pregação de Jesus e, sob o impulso de uma graça sensível, deixou-se arrebatar por Seus divinos ensinamentos. Almejando, de um lado, alcançar a vida eterna e, de outro, não tendo a certeza de merecê-la, sentiu no fundo da alma ser Jesus capaz de mostrar-lhe com segurança o caminho da salvação.

Desde toda a eternidade esteve prevista na
mente divina acriação, no tempo, de Nosso
Senhor Jesus Cristo, enquanto homem e de sua
Mãe, Maria Santíssima “Nossa Senhora com
o Menino Jesus”, por Maestro della Pradella –
Museo Amadeo Lia, La Spezia (Itália)

A própria pergunta feita por ele ao Salvador, fala neste sentido, pois, como aponta Didon, ela “revelava uma natureza superior e uma alma sincera. As doutrinas da escola sobre o mérito das obras legais, sobre a santidade pela virtude dos ritos, não satisfaziam sua consciência; certamente ouviu o Mestre falar da vida eterna com uma acentuação que o tinha penetrado”.

Daí o fato de ele correr até Jesus, ajoelhar- se e chamá-Lo de “Bom Mestre”, um qualificativo alheio aos costumes e gentilezas correntes na época. “Não se conhece exemplo de que alguém tenha chamado assim um rabino”, comenta Lagrange, acrescentando que essa saudação “ultrapassava os hábitos de cortesia então vigentes”.4

É também interessante destacar o teor da pergunta, tão diferente dos temas sobre os quais se conversa hoje em dia. Naquela época, as pessoas se preocupavam em saber como ganhar o Reino dos Céus. E nos dias de hoje?…

Sobre a pressa do jovem, observa Fillion: “Corria para não perder aquela ocasião de fazer ao Salvador uma pergunta que muito o preocupava”.5 Duquesne elogia essa atitude e a propõe como exemplo: “É com este fervor de espírito e esta rapidez de corpo, esta presteza e esta alegria espiritual que se deve ir a Jesus”.6

Jesus o ama e faz-lhe um convite: “Vem e segue-Me”

18 “Jesus disse-lhe: ‘Por que Me chamas bom? Só Deus é bom'”.

Esta resposta causa perplexidade à primeira vista, mas logo se compreendem as divinas razões que levaram Nosso Senhor a dá-la.

Não visava o Messias repreendê-lo, mas sim chamar sua atenção para esta realidade: só Deus é a Bondade e, portanto, bondade absoluta só há em Deus. Santo Efrém ensina a este respeito que Cristo “recusa o título de ‘bom’, dado por um homem, para indicar que Ele tinha essa bondade adquirida do Pai, por natureza e geração, que não a tinha simplesmente de nome”.7

Ao chamá-Lo de “Bom Mestre”, o jovem rico mostrava ver principalmente o lado humano do Messias: sua inteligência, capacidade e sabedoria naturais. Ora, Jesus quer que ele O considere não só como homem, mas sobretudo como Deus. E por isso o interpela: “Por que Me chamas bom?”.

Com essa pergunta, o convida a dar um passo a mais, como quem diz: “Estás vendo só o meu lado humano, contempla também o divino. No fundo, sem te dar conta, estás Me atribuindo uma divindade que de fato tenho, porque sou Deus. Mas toma consciência disto, compreende esta realidade com clareza e, compreendendo, ama-a ainda mais”.

Este convite é suave e altamente didático, como afirma o padre Duquesne: “Jesus apenas insinua- lhe que ele não tem a Seu respeito a noção inteira que deveria ter; e, dizendo-lhe que tal título convém somente a Deus, leva-o a entender que deveria considerar como Filho de Deus Aquele a quem ele o dá, e não como um mestre simplesmente humano”.8

19 “‘Conheces os Mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’. 20 Ele respondeu- lhe: ‘Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade'”.

Nova mostra da divindade de Jesus nos dá este versículo. Ele não pergunta ao jovem se conhece os Mandamentos, mas o afirma com certeza. A quem agora via com Seus olhos humanos, já conhecia, enquanto Deus, desde toda a eternidade. E sabia que ele praticava a virtude, observando a Lei.

21 “Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: ‘Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me'”.

Cristo olhou-o com amor e fez-lhe o mesmo convite que fizera aos Apóstolos: “Vem e segue- Me”. Comenta Fillion: “Portanto, estava Jesus disposto a admitir esse jovem entre os Seus discípulos íntimos, com os quais, seguindo-O por toda parte e em companhia do melhor e mais santo dos mestres, poderia adquirir sem tardança a perfeição pela qual conseguiria facilmente o Céu“.9 E Maldonado corrobora essa opinião:

“Que entende Cristo por ‘vem e segue-Me’? A palavra ‘vem’ parece exprimir, mais do que a simples imitação, o seguimento material: convida- o a fazer parte de seus Apóstolos e familiares”.10

“Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se
todo abatido, porque possuía muitos bens”
 “O moço rico – Litografia de Caspar Luiken
publicada em “Histó-ria celebriores Veteris
Testamenti iconibus represen-tatae” (1712)

Àquele homem, que praticava os Mandamentos, havia Deus reservado desde toda a eternidade a altíssima vocação de seguir Jesus. Para cumpri- la, era-lhe pedida uma renúncia: “Vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres“; e oferecida uma recompensa infinita: “terás um tesouro no Céu“. Cabia-lhe responder a esse chamado com inteira alegria e prontidão, como haviam feito Simão, Levi e tantos outros.

A causa mais profunda da recusa

22 “Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens”.

Entretanto, o mesmo que chegara correndo e se ajoelhara sôfrego diante de Nosso Senhor, retirou- se triste e “abatido“, porque “possuía muitos bens” e preferiu conservá-los a seguir sua vocação, desprezando o “tesouro no Céu” que o próprio Messias lhe oferecera. Fato inédito, pois os Evangelistas não narram recusa semelhante a esta.

Não pensemos, entretanto, ter sido o apego às riquezas a principal causa de sua defecção. O jovem rico praticara os Mandamentos desde sua infância, mas não na perfeição. Negligenciara, sobretudo, o primeiro e mais fundamental: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5). Como bem observa o conhecido biblista M. J. Lagrange, os preceitos mencionados a ele por Nosso Senhor “bem podem ser observados sem heroísmo. Se Jesus lhe tivesse perguntado se amava a Deus de todo o coração, teria ficado bem mais incomodado”.11

O grande pecado desse homem não foi, portanto, de avareza, mas sim de orgulho. Ao ser convidado a seguir Nosso Senhor e sentir em si a própria debilidade e insuficiência, deveria ter dito: “Senhor, não tenho forças para seguir-vos. Tenho apego a minhas riquezas e, sobretudo, faltame amor exclusivo por Vós”.

Perante esse ato de humildade, Jesus lhe teria dado graças superabundantes para corresponder ao chamado. E bem poderíamos ter hoje no Calendário Romano uma festa dedicada ao jovem rico, que se tornou pobre para adquirir uma riqueza muito maior: o décimo terceiro Apóstolo!

Entretanto, faltou-lhe reconhecer que, se praticava os Mandamentos, não era por suas próprias forças, mas pela graça divina. E que, portanto, sem o auxílio da graça, não conseguiria desprezar as riquezas e seguir Jesus.

III – Só os pobres de Espírito entrarão no Reino dos Céus

23 “E, olhando Jesus em derredor, disse a Seus discípulos: ‘Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!’. 24 Os discípulos ficaram assombrados com Suas palavras. Mas Jesus replicou: ‘Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas! 25 É mais fácil passar o camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus'”.

Neste último versículo, Nosso Senhor Se serve de um provérbio utilizado pelos judeus para expressar algo extremamente difícil e quase impossível. Recorre propositalmente a essa comparação na aparência exagerada – “é mais fácil passar o camelo pelo buraco de uma agulha…” – para mostrar a gravidade da “desordem própria dessa paixão, consistente em apegar o coração à terra, endurecê-lo no que diz respeito a Deus e ao próximo, torná-lo insensível às coisas do Céu”.12

Para bem analisar essas palavras de Jesus, é preciso começar por evitar a interpretação errada, segundo a qual todo rico estaria condenado e todo pobre, ao contrário, estaria no caminho certo para a salvação. Pois o Mestre não se refere aqui à riqueza material, mas sim ao desvio que leva o homem a depositar sua confiança nos bens terrenos, antepondo-os aos bens superiores.

Sobre este particular, esclarece Fillion: “Não se trata aqui dos ricos enquanto tais, pois a posse dos bens temporais não é, de si, um estado de pecado nem causa de condenação, embora ofereça sérios perigos. Jesus não exclui de Seu Reino senão aqueles ricos que se apegam às suas riquezas e nelas põem – digamos assim – sua finalidade e todo o seu afeto”.13

Como valer-se da riqueza para alcançar a vida eterna

A finalidade última do homem está no Céu. O dinheiro e as riquezas podem ser apenas meios – efêmeros, instáveis e dispensáveis – para alcançar esse supremo fim. Assim, é legítimo acumular bens e deles usufruir, desde que sejam adquiridos de forma lícita e seu uso esteja subordinado à glória de Deus.

Homens e mulheres houve na História que
 possuíram muitos bens e agora gozam
a bem-aventurançaeterna “São Luís,
Rei de França” – Igrejade Santo
Eustáquio, Paris

Nesta linha se insere o comentário feito por São Clemente de Alexandria a esta passagem do Evangelho: “A parábola ensina aos ricos que não devem descuidar-se de sua salvação eterna, como se de antemão dela se desesperassem, não que seja preciso jogar ao mar a riqueza, nem condená-la como insidiosa e inimiga da vida eterna. O que importa é saber qual a maneira de valer-se dela para possuir a vida eterna”.14

Com efeito, quantos reis, príncipes ou simples pessoas abastadas que, administrando o que tinham com inteiro desprendimento, encontramse hoje no Céu como atesta o catálogo dos santos?

Por outro lado, quantos pobres há que se recusam a praticar a virtude! Bem fariam estes em ouvir a conclamação de São Cesário de Arles: “Ricos e pobres, escutai o que diz Cristo. Falo ao povo de Deus. Em vossa maioria, sois pobres ou deveis aprender a sê-lo. No entanto, escutai, pois podemos inclusive nos vangloriarmos de ser pobres; tende cuidado com a soberba, não aconteça que os ricos humildes vos superem; acautelai-vos contra a impiedade, não aconteça que os ricos piedosos vos deixem para trás”.15

O problema não está, portanto, na quantidade de bens materiais possuídos por alguém, mas no uso que deles se faz. Para poder entrar no Reino dos Céus, é preciso não ter apego algum a eles. A pobreza de espírito consiste em nos compenetrarmos que somos criaturas contingentes, que dependem de Deus. Pode-se lutar para se ter recursos, mas com vistas a espalhar o Reino de Deus, e fazer com que Ele reine de fato em todos os corações.

Por nosso simples esforço, jamais conquistaremos o Céu

26 “Eles ainda mais se admiravam, dizendo a si próprios: ‘Quem pode então salvar- se?’. 27 Olhando Jesus para eles, disse: ‘Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível'”.

Não é de estranhar o espanto dos discípulos perante a força da comparação usada por Nosso Senhor. Mas essa mesma perplexidade os leva a considerar melhor a própria contingência e a fixar no espírito o duplo ensinamento do Divino Mestre: pelos seus simples esforços, o homem jamais conseguirá conquistar o Céu; mas aquilo que para o homem é impossível, não o é para Deus.

Deus é onipotente, ama-nos desde toda a eternidade e está desejoso de abrir-nos as portas Do Céu. Para nele entrar, é preciso apenas que sejamos humildes e reconheçamos nossas misérias, pedindo o auxílio divino, sem desanimar.

A salvação, como a própria vida, é uma dádiva de Deus. É Sua graça que nos dá forças para praticar os Mandamentos e nos torna dignos de entrar no Seu Reino. Não façamos, pois, como o moço rico, mas confiemos humildemente na Sua bondade, como ensina São Paulo na segunda leitura deste domingo: “Aproximemo-nos confiadamente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno” (Hb 4, 16).

Ainda sobre estes dois versículos, convém notar, com Maldonado, que a pergunta “quem pode então salvar-se?”, os Apóstolos a fizeram “a si próprios”, isto é, somente eles puderam ouvi-la. Cristo, entretanto, olhou para eles e deu-lhes a resposta, mostrando assim que “lia seus pensamentos e ouvia suas conversas, por mais reservadas que fossem”.16

O cêntuplo já neste mundo

28 “Pedro começou a dizer-Lhe: ‘Eis que deixamos tudo e Te seguimos’. 29 Respondeu- lhe Jesus: ‘Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de Mim e por causa do Evangelho 30 que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna'”.

Talvez pelo fato de se sentirem apanhados, São Pedro, impulsivo porta-voz de todas as perplexidades dos Apóstolos, formula uma frase que, no dizer de Lagrange, “resume todo o episódio precedente, do ponto de vista dos discípulos”.17

A que distância se encontra nossa alma da
atitude do moçorico? Se Cristo nos convidasse
hoje a segui-Lo, como Lheresponderíamos?
 “Sagrado Coração de Jesus”Igreja de Nossa
Senhora de Loreto, Lisboa

Segundo Maldonado – o qual segue a opinião de Orígenes, São Jerônimo e São João Crisóstomo – quis Pedro, com sua afirmação, lembrar a Cristo o fato de terem os Apóstolos já cumprido anteriormente aquilo que era agora pedido ao jovem rico.18 No mesmo sentido se pronuncia Lagrange, observando que a afirmação do Príncipe dos Apóstolos foi feita “com uma certa satisfação que parece solicitar uma aprovação”.19

Mas caberia perguntar, com Maldonado: “Por que, então, duvidava? Por que não creu firmemente que também para eles havia um tesouro no Céu?”. Ao que ele próprio responde: “Talvez porque pensassem que Cristo prometia tão grande recompensa àquele jovem por causa das muitas riquezas que este devia abandonar; ora, como os Apóstolos possuíam apenas coisas de pouco valor, esperavam receber algo, sim, mas não se atreviam a esperar tanto; por isso perguntam como e quanto será”.20

No fundo da afirmação de Pedro havia uma desconfiança e uma objeção. Jesus, entretanto, não os repreende. Sendo a Bondade em essência, Ele os trata com carinho e acrescenta, ao prêmio da vida eterna no Céu, uma recompensa ainda aqui na terra.

Comentam certos autores que o Senhor, fazendo essa promessa, quis afirmar que quem por causa dEle deixar os bens desta terra, receberá em troca bens de valor infinito. Ou seja: quem por Ele abandonar aquilo que é “carnal”, receberá em troca o prêmio do bem “espiritual”.

Parece-nos, entretanto, que as palavras do versículo 30 – “já neste século” – tornam claro o caráter terreno dessa recompensa, cuja efetivação concreta na era apostólica é assim assinalada por Fillion: “Nos primórdios da Igreja, quando tão amiúde os neófitos precisavam romper os mais estreitos laços de família para se alistarem no serviço de Cristo, encontravam eles na grande comunidade cristã irmãos e irmãs, pais e mães que lhes suavizavam os padecimentos causados por uma violenta separação e enchiam de consolo seus doloridos corações”.21

Sob uma perspectiva mais atemporal, assinala o padre Didon que o Espírito divino “não só traz a todos aqueles que invisivelmente O recebem o antegozo dos bens celestiais, eternos, infinitos, mas, além disso, exalta ainda a vida deste mundo, aumenta seus recursos, harmoniza as suas energias, transfigura todos os seus atos. Entre os seres eleitos que este Espírito aproxima, formam- se laços mais íntimos, mais profundos, mais doces que entre aqueles que são parentes do mesmo sangue”.22

E o padre Fernández Truyols, referindo-se especificamente às pessoas que correspondem à vocação religiosa e fazem a entrega completa de si mesmas, comenta: “O sacrifício dos bens terrenos terá sua recompensa já nesta vida. E não só em vantagens exclusivamente espirituais, mas também em bens temporais, embora num plano superior ao puramente material. Quem se despoja de tudo para seguir Cristo Jesus receberá da Divina Providência, quiçá com acréscimo e superabundantemente, o quanto necessitar para sua subsistência. Deixa seu pai e sua mãe, e Deus dá-lhe pais e mães que o adotam como um filho muito querido. Donzelas na flor da juventude renunciam à maternidade, e Deus as faz mães não de alguns, mas de inumeráveis filhos, nos quais derramam todas as ternuras de um coração verdadeiramente maternal”.23

IV – Uma pergunta decisiva para nossa vida espiritual

Somos todos “participantes da vocação celestial” (Hb 3, 1). Contudo, enquanto Jesus nos chama a segui- Lo a caminho do Reino de Deus, as nossas tendências desordenadas em consequência do pecado original nos arrastam para aquilo que é inferior.

Exemplo paradigmático dessa dicotomia é o episódio do Evangelho que acabamos de comentar. O jovem rico era bom. Praticava os Mandamentos a ponto de Nosso Senhor o fitar com amor. Quando, porém, o Mestre o convidou a ser um dos Seus discípulos, afastou-se triste e abatido, pois sempre que alguém recusa um convite da graça, é pervadido pela tristeza e pelo remorso. O padre Duquesne descreve com notável clareza essa lamentável situação de alma: “Ninguém renuncia à sua vocação sem uma dor de coração, sem uma secreta tristeza que increpa sua covardia, tristeza que difunde amargura ao longo de todo o curso da vida e aumenta na hora da morte”.24

A liturgia deste domingo nos coloca, assim, diante de uma pergunta decisiva para nossa vida espiritual: a que distância se encontra nossa alma da atitude do moço rico? Se Cristo nos convidasse hoje a segui-Lo, como Lhe responderíamos? Bradaríamos com alegria, como Samuel: “Præsto sum” (I Sm 3, 16) – “Eis-me aqui”? Ou, tomados pela tristeza, recusaríamos o convite de nosso Salvador?

Quando chegar esse chamado – e ele pode vir em hora inesperada -, seremos muito mais capazes de dar resposta afirmativa se nos tivermos preparado previamente. Para isso, é necessário que, em todas as circunstâncias da vida, nosso coração esteja à procura do Divino Mestre, combatendo o apego aos bens terrenos, aumentando sem cessar o fogo do amor a Deus e fazendo a pergunta de São Paulo no caminho de Damasco: “Senhor, que quereis que eu faça?” (At 9, 6).

A isto nos incita o Príncipe dos Apóstolos: “Irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (II Pd 1, 10-11).

1 AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. III q. 24, a. 1, resp. “A predestinação propriamente dita é a eterna pré-ordenação divina com relação às coisas que, pela graça de Deus, devem realizar- se no tempo. Ora, pela graça da união, Deus fez com que, no tempo, o homem fosse Deus e Deus fosse homem. E não se pode afirmar que Deus não tenha pré-ordenado desde a eternidade que Ele faria isso no tempo, porque daí se seguiria que algo de novo poderia acontecer para o entendimento divino. Por isso é preciso afirmar que a união das naturezas na pessoa de Cristo entra na predestinação eterna de Deus”.
2 JOÃO PAULO II. Encíclica Redemptoris Mater, n. 8.
“No mistério de Cristo, Maria está presente já ‘antes da criação do mundo’, como aquela a quem o Pai ‘escolheu’ para Mãe do seu Filho na Encarnação – e, conjuntamente ao Pai, escolheu- a também o Filho, confiando-a eternamente ao Espírito de santidade.
Maria está unida a Cristo, de um modo absolutamente especial e excepcional; e é amada neste ‘Filho muito amado’ desde toda a eternidade, neste Filho consubstancial ao Pai, no qual se concentra toda ‘a magnificência da graça'”.
3 DIDON, OP, Pe. Henri. Jesus Christo. Porto: Chardron, 1895, p. 381.
4 LAGRANGE, OP, Pe. M.J.
Évangile selon Saint Marc.
Paris: Lecoffre, 1929, p. 264.
5 FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo.
Madrid: Rialp, v. 2, p. 429.
6 DUQUESNE. L’Évangile médité. Paris-Lyon: Perisse Frères, 1849, p. 266.
7 SAN EFRÉN DE NISIBE, Comentario al Diatessaron, 15, 210 apud ODEN, Thomas C. e HALL, Cristopher A. La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia – Nuevo Testamento 2 San Marcos. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, p. 199.
8 DUQUESNE. Op. cit., p. 267.
9 FILLION. Op. cit., p. 431.
10 MALDONADO, SJ, Pe. Juan de. Comentarios a los cuatro evangelios – I Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, p. 692.
11 LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 266.
12 DUQUESNE. Op. cit., p. 273.
13 FILLION. Op. cit., p. 431.
14 CLEMENTE DE ALEJANDRÍA.
Quis dives salvetur? c. XXVII.
15 CESÁREO DE ARLES, Sermo 153, 156 apud ODEN e HALL. Op. cit., p. 202.
16 MALDONADO, SJ. Op.
cit., p. 695.
17 LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 271.
18 Cf. MALDONADO, SJ.
Op. cit., p. 695.
19 LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 271.
20 MALDONADO, SJ. Op.
cit., p. 695.
21 FILLION. Op. cit., p. 433.
22 DIDON, OP. Op. cit., p. 385.
23 FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: BAC, 1954, p. 482.
24 DUQUESNE. Op. cit., p. 270-271

(Revista Arautos do Evangelho, Outubro/2009, n. 94, p. 10 à 17)

Monsenhor  João Clá Dias

Uma história com sabor de lenda

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Dizia que na ilha de Creta havia um quadro da Santíssima Virgem que o povo venerava em razão de inúmeros milagres que aconteciam. Um dia, um rico negociante roubou o quadro e o levou até Roma na esperança de fazer um bom dinheiro.
Quando o navio atravessava o mar Mediterrâneo, uma grande tempestade ameaçava pôr o navio a pique. Sem saber que o quadro da Virgem estava com eles, os marinheiros começaram a rezar pedindo a proteção de Maria e foram prontamente atendidos: a tempestade cessou.
    Após o falecimento do ambicioso comerciante que não conseguiu vender o quadro da Virgem Maria, Ela aparece a uma menina, filha da senhora que guardava a tela, pedindo que a pintura fosse colocada em uma Igreja.
    O título de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, foi a própria Virgem que o usou, quando falou à menina a quem apareceu. Talvez fosse esse título com que era venerada em Creta ou seria a inovação que Ela gostaria fosse usada daquele dia até hoje. Como a ilha de Creta foi dominada muitos séculos pelos muçulmanos, que destruíram todos os documentos cristãos, pouco se sabe da origem do quadro e da Igreja onde era cultuado. Alguns historiadores dizem que deve ser uma das cópias do quadro da Virgem pintado por São Lucas.
    É uma pintura em madeira, estilo bizantino, feita por um pintor grego, pois são letras gregas que acompanham o quadro em suas inscrições. (N. D. Ou de algum outro artista que pintou o quadro em caracteres gregos). Com arte e piedade, com elegância e simplicidade, representa a Virgem Maria a meio corpo. Uma túnica vermelha reveste o seu corpo e um manto preto encobre sua cabeça. Os arcanjos São Miguel e São Gabriel mostram os instrumentos da Paixão do Senhor. O Menino Jesus, nos braços de Maria, olha assustado para esses instrumentos. Suas mãozinhas apertam nervosas a mão de Maria, como a pedir-lhe socorro, sua sandalhinha do pé esquerdo está desamarrada. Maria abraça com ternura a Jesus que parece estar seguro. Ambos têm uma auréola ao redor da cabeça e usam uma coroa aberta como a de um duque. Ao lado, mais ao alto,estão umas letras de alfabeto grego.
    O quadro foi levado à capela de São Mateus, em Roma no ano de 1499, onde permaneceu recebendo a veneração popular por mais três séculos. Um criminoso incêndio destruiu tudo. No século XIV, o Papa Pio IX (sic), chamou os padres Redentoristas para ocuparem o mesmo convento e capela que foram destruídos no templo dos Agostinianos.
    Um dos redentoristas encontrou documentos que falavam do quadro. Após muita procura o quadro foi achado através de uma revelação divina. O milagroso quadro foi introduzido triunfalmente em seu atual santuário, em 1866. O Papa, ao solicitar o cuidado dos redentoristas, para com o quadro e o santuário disse: Fazei com que todo mundo conheça o Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. É um dos mais populares por ser muito expressivo, pois qual é a criatura humana que não passa por momentos de angústia e aflições, necessitando um socorro divino, seguro e perpétuo?
    MONS. JOSÉ LÉLIO MENDES FERREIRA, Maria na América, Bragança Paulista, Outubro de 1992, (pgs. 77-78)
 

Um jovem país: Moçambique

Arautos do Evangelho_MoçambiqueComo é bom sentir-se protegido pelos próprios pais. Todos certamente sabem-no por experiência. A criança  vê nos seus pais o consolo quando está triste, a segurança no perigo, o auxílio nas dificuldades e até a recompensa nos esforços. São eles que  limpam as suas lágrimas e guiam-na pela mão.

Entretanto, quão grande não será a alegria de uma mãe que vê o seu filho dando os primeiros passos apoiado em seus próprios pés.
Do mesmo modo, é uma grande alegria quando uma nação deixou a fase infantil e ela mesma é capaz de guiar a sua própria marcha rumo a um futuro feito de progressos, revelando assim a maturidade de seus pensamentos e a resolução no seu caminhar.
Por ocasião do 36º.Independência_Maputo_Arautos do Evangelho 

Aniversário da independência do país, nos diversos recantos do jovem Moçambique, esta data foi solenemente celebrada no dia 25 de junho. Em Matutuine, por exemplo, a cerimônia começou com uma pequena passeata até a praça (cópia daquela em que jazem os heróis moçambicanos) no centro da Vila, onde todos, a uma só voz, exclamavam o “Viva a independência” e ao som da Banda dos Arautos do Evangelho, entoaram a plenos pulmões o Hino Nacional.Maputo_Arautos do Evangelho

A deposição de flores feita pelo Administrador de Matutuine aos pés daqueles que combateram em prol do bem estar dos seus concidadãos, testemunhou a gratidão de todos a esses heróis e serviu de penhor de levar avante o país até a sua plena realização.

As demais personalidades ali presentes, incluindo dois sacerdotes encarregados da direção espiritual dos fiéis católicos daquela vila, imitaram o gesto depositando  uma rosa no monumento. discursos, apresentações culturais, feiras, etc., deram seqüência a programação daquele dia cuja memória está cunhada a ferro em brasa nos corações moçambicanos.

Dirson Castigo Machaieie

Eternidade Feliz

Evangelho

17 Descendo com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sidônia. 20 Levantando os olhos para os seus discípulos, dizia: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. 21 Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir. 22Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, vos carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem. 23Alegrai-vos nesse dia e exultai, porque será grande a vossa recompensa no Céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas. 24 Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação. 25 Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis. 26 Ai de vós, quando os homens vos louvarem, porque assim faziam aos falsos profetas os pais deles” (Lc 6, 17 e 20-26).

As Bem-aventuranças enunciadas por Jesus mudaram o curso da História e marcaram o início de uma nova era: o Cristianismo. A crueldade do mundo pagão foi assim ferida de morte. E a doutrina da obediência à Lei requintou-se até alcançar um sublime grau: a prática do amor e o desejo de santificação. Neste artigo, o leitor encontrará um dos fundamentos do carisma dos Arautos do Evangelho.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

I – DIVINA PREPARAÇÃO PARA A EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA

Primeira etapa da formação: o convívio

Apesar de não serem dotados de razão e, portanto, incapazes de entender uma doutrina, os animais aprendem como se tivessem uma escola de ensino. Há entre eles um forte relacionamento instintivo, pelo qual uns transferem aos outros as experiências adquiridas.

As Bem-aventuranças
mudaram o curso
da História

(Jesus Abençoando,
igreja de Saint
Séverin, Paris)

Por exemplo, num determinado momento, a águia começa treinar seus filhotes a lançarem-se nas primeiras tentativas de vôo; a leoa transmite à sua cria lições práticas de caça; e os insetos são alvo do instinto materno da galinha, quando estimula seus pintainhos a encontrar alimentos.

Num plano superior, isto ocorre também com o homem, ser inteligente e possuidor de um nobre instinto de  sociabilidade. No colo da mãe, a criança recebe as primeiras lições: no modo de ser abraçada, beijada, acariciada… ela vai adquirindo as primeiras noções sobre o convívio social. Depois, no trato com os irmãos e parentes mais próximos, observando seus modos e costumes, ela assimilará o estilo próprio à sua família. E só muito mais tarde chegará a ocasião propícia para uma formação doutrinária e metódica.

Assim também procedeu Jesus com seus Apóstolos e com seu povo.

Os primeiros passos para a fundação da Igreja

Já havia o Salvador pregado nas sinagogas da Galiléia, “e era aclamado por todos” (Lc 4, 15); multiplicava maravilhas por onde passava, expulsava os demônios dos possessos a ponto de levantar a interrogação: “Manda com poder e autoridade aos espíritos imundos, e eles saem?” (Lc 4, 36); curara a sogra de Pedro e um incontável número de outros enfermos (Lc 4, 38-41); operara a inesquecível pesca milagrosa (Lc 5, 1-7); quebrando todos os padrões multisseculares, tocara num leproso, tornando-o são (Lc 5, 12-14); e perdoava os pecados (Lc 5, 18-20). Assim, devido a um convívio que se tornara assíduo, todos estavam já tomados pela exemplaridade de Jesus em seus mínimos detalhes.

Com a eleição dos doze Apóstolos, concluiu Jesus com chave de ouro a primeira fase do ensino. Tornava-se agora necessário expor sua doutrina de maneira metódica, a fim de conferir um embasamento lógico a todas as suas ações e ensinamentos.

E é nessa seqüência que se insere o Sermão da Montanha.

Com muita propriedade, a esse respeito assim se expressa Fillion: “A instituição do Colégio Apostólico e o Sermão da Montanha são fatos conexos e ambos têm elevadíssimo significado na vida de Jesus. Com razão são considerados como os primeiros passos para a fundação da Igreja. Com a eleição dos Apóstolos, procurava Ele auxiliares e preparava continuadores oficiais; ao pronunciar seu grande discurso, promulgava o que expressivamente tem-se chamado a Carta do Reino dos Céus” (1).

A pregação e o proceder de Jesus eram inéditos para a psicologia e mentalidade daqueles povos da Antiguidade. Por isso, não só para os judeus comuns, mas até mesmo para os próprios Apóstolos, era indispensável uma exposição estruturada do pensamento do Divino Mestre. Uns e outros estavam maravilhados, mas chegara o momento de Ele dar a conhecer de forma clara e sintética, sobretudo aos Apóstolos, a doutrina em função da qual se movia. Ademais, dada a progressiva dissensão entre Ele e os escribas e fariseus, fazia-se oportuna uma definição de programa, para assim se tornar efetiva a profecia do Velho Simeão: “Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição” (Lc 2, 34).

II – O MAIOR PARADOXO DA HISTÓRIA

Antes de nos aprofundarmos na análise das Bem-aventuranças, consideremos o grande paradoxo que representou, para a época, o Sermão da Montanha.

Os antigos gregos costumavam chamar de paradoxo ao enunciado (moral ou doutrinário) que contrariasse a opinião pública comum e corrente. E autores de grande fama afirmam ter sido esse Sermão o mais contundente, amplo e radical paradoxo havido até então.

Para melhor compreendermos o quanto Jesus abalou os fundamentos do paganismo na gentilidade e alguns desvios introduzidos nos costumes do próprio povo eleito, recordemos em rápidas pinceladas qual era o quadro social da Antiguidade, ao iniciar o Redentor sua vida pública.

Os costumes da Antiguidade

Pode-se facilmente encher páginas e mais páginas com fatos demonstrativos da degradação do mundo antes de Jesus Cristo. Limitemo-nos a alguns dados fornecidos pelo conceituado historiador J. B. Weiss. (2)

Diz ele:”Em toda a Antiguidade,a mulher é vista como um ser inferior. Seu valor é, segundo Aristóteles, pouco diferente do de um escravo. Sempre está submetida à tutela do pai ou do esposo (…) o marido tinha sobre ela direito de vida e de morte”.

E continua: “O pai era, não só o chefe, mas o déspota da família, e o filho era sua propriedade absoluta: podia vendê-lo até três vezes, podia matá-lo (…) A criança recémnascida era apresentada ao pai; se este a levantasse, ela seria criada; se a deixasse no solo, seria abandonada (…) seria lançada na água ou largada às feras no bosque. Na melhor das hipóteses, ficaria exposta em locais públicos, à disposição de quem quisesse educála para a escravidão ou a prostituição.”

Há entre os animais um forte relacionamento instintivo,
pelo qual uns transferem aos outros as experiências
adquiridas. Em certo momento, a águia e a leoa
começam a treinar seus filhotes para a caça

Não era muito maior o valor atribuído à vida do pobre: “O egoísmo levou o mundo antigo a desprezar a pobreza. (…) Platão opina que não é preciso preocupar-se com o pobre quando este fica enfermo, pois, não podendo mais trabalhar, sua vida de nada mais serve”.

Quanto aos escravos – mais de um milhão, só em Roma! – estes não tinham direito algum, podiam ser tratados como míseros sapatos velhos. “O romano (…) classificava assim os instrumentos: ‘uns são mudos, como o arado e o carro; outros emitem vozes inarticuladas, como os bois; o terceiro fala, é o escravo’.”

O gozo desenfreado da vida, em Roma, a tal ponto embruteceu os homens que, afirma Weiss: “Agora só o sangue os podia estimular. (…) O que mais agradava ao romano era ver morrer homens”. E dá alguns exemplos:

Numa representação teatral, incendiar uma casa para assistir à morte de todos os seus habitantes. Em outra, crucificar um chefe de ladrões e, vivo ainda, trazer ursos famintos para devorá-lo diante da assistência. Numa terceira, atirar um jovem do alto de uma torre, para a platéia vê-lo espatifar-se no chão.

Tudo isto, note-se, nas duas grandes civilizações da época: a grega e a romana. O próprio povo eleito tinha alguns costumes de crueldade inegável. Por exemplo, a escravidão de gentios, a pena de talião, o impiedoso tratamento dado aos leprosos, etc.

III – O MANDAMENTO DA PERFEIÇÃO

Esta era a situação do mundo pagão quando Jesus dirigiu aos seus discípulos e à grande multidão o Sermão da Montanha.

São Mateus desenvolve mais amplamente essa exposição doutrinária do Divino Mestre em seu capítulo 5º, terminando por uma síntese de toda a matéria no versículo 48: “Sede, pois, perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito.” Eis aqui a substância das Bem-aventuranças – assim como das maldições opostas – resumidas por São Lucas no Evangelho de hoje. Detenhamo- nos na sua consideração.

Ao criar a alma humana, Deus infundiu-lhe um forte anseio de felicidade. Daí o não ter havido, e nem haverá, quem nunca a tenha procurado. Sobretudo em épocas como a nossa, tão atravessada por dramáticas crises, apreensões e sofrimentos, torna-se ainda mais aguda essa veemente apetência.

Onde, porém, encontrá-la com inteira segurança?

Deus nada cria senão para Si. Por esta razão, fora d’Ele os seres inteligentes – anjos ou homens – não obtêm verdadeira felicidade a não ser cumprindo com a finalidade última para a qual foram criados. É sobre esta relação entre o homem e Deus que incide a grande promessa feita por Jesus: a de sermos bem-aventurados nesta terra e post-mortem, por toda a eternidade, no Céu.

“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação”

Nós cristãos, enquanto batizados, temos a obrigação de não perder o estado de graça. Se, por fraqueza ou maldade, dele nos vejamos privados, com diligência devemos procurar recuperá-lo. Essa é a chamada perfeição mínima.

No Sermão da Montanha, Jesus não nos impõe a obrigação de sermos perfeitos. Porém, manifesta o desejo de que o aspirar a esse estado constitua um dos pontos essenciais da nossa existência. Além disso, tantos foram os tesouros por Ele deixados à humanidade – o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, etc. – que, só por gratidão a tão imensos benefícios, já seria uma obrigação da nossa parte nos colocarmos a campo para atingir a meta enunciada por Jesus.

Com muita razão, a respeito da universalidade desse dever de santidade, assim se expressa João Paulo II: “É preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, o capítulo V da Constituição Dogmática Lumen Gentium, intitulado ‘Vocação Universal à Santidade’. (…) O dom [de santidade concedido à Igreja] gera, por sua vez, um dever que há de moldar a existência cristã inteira: ‘Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação’ (1 Tes 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas ‘os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade’ (…) Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objeto de equívoco, vendo nele um caminho  extraordinário, percorrível apenas por algum ‘gênio’ da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um” (3).

São Paulo é incansável em frisar a necessidade da perfeição sem limites, como substância da vocação do cristão: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a bênção espiritual do Céu em Cristo, assim como n’Ele mesmo nos acolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante d’Ele …” (Ef 1, 3-4). É comum, ao longo de suas Epístolas, encontrarmos uma verdadeira sinonímia entre os termos “cristão” e “santo”, tal era o seu empenho neste particular (4).

Deus é infinito. Portanto, quem é chamado a amá-Lo tem por fim último um Ser ilimitado. O amor nosso é uma potência criada com aspiração por Deus, e por isso diz Santo Agostinho: “Nossos corações foram criados para Vós e só em Vós repousam”, ou seja, a própria potência do amor em si mesma visa o infinito. Por isso afirma São Francisco de Sales: “A medida de amar a Deus, consiste em amá-Lo sem medida”.

O próprio Jesus, com divina radicalidade, assim reforça o Mandamento dado a Moisés: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Mc 12, 30). Daí se conclui termos o dever de buscar o fim em toda a sua amplitude, e de empregar, para atingi-lo, todos os meios ao nosso alcance.

Só o sangue estimulava os embrutecidos espectadores dos espetáculos romanos

(Mosaico com cenas de Circo, Galeria Borghese, Roma)

Ademais, toda vida, também a sobrenatural, é suscetível de progresso, e tem em si uma força dinâmica que busca seu desenvolvimento. No que diz respeito ao nosso corpo, esse processo se verifica instintiva e prazeirosamente. Quanto ao espírito, porém, é indispensável a aplicação de nossa inteligência e de nossa vontade, a fim de cooperarmos com a graça de Deus.

IV – AS BEM-AVENTURANÇAS

Feitas essas considerações, passemos a analisar com vagar os diversos versículos do Evangelho deste domingo.

Descendo com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sidônia (v. 17)

De todas as partes acorriam os enfermos e curiosos, uns para serem libertos de seus males, outros para comprovar a realidade da fama de Jesus, que se espalhara.

E por que não subiram todos para encontrar-se com Jesus no cimo do monte? São Beda, o Venerável, assim nos explica: “Rara vez se observará que as turbas tenham seguido Jesus até as alturas, ou que Ele tenha curado algum enfermo no cimo de monte; senão que, uma vez curada a febre das paixões e acesa a luz da ciência, devagar sobe-se até o cume da perfeição evangélica” (5). Por isso o Divino Mestre desce com os Apóstolos recém-eleitos para estar com a multidão que O aguardava.

Levantando os olhos para seus discípulos… (v. 20)

São variadas as interpretações dos autores a propósito desse gesto de Jesus. Pela própria narração de Lucas, tem-se a impressão de estarem os discípulos localizados num plano mais alto que o da multidão e como talvez desejasse oferecer àquela gente um certo exemplo, apesar de estar falando a todos, fixa seu olhar nos Apóstolos.

“Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (v. 20).

A pobreza é citada em primeiro lugar por ambos os evangelistas, por ser a mãe das outras virtudes. Como poderia, aliás, alguém entrar no Reino dos Céus possuído do amor a este mundo e aos seus bens?

Quem é considerado “pobre”, segundo o Evangelho? Lázaro possuía uma das maiores fortunas de Israel, entretanto era pobre de espírito. E, em sentido oposto, Judas por sua ganância, apesar de pouco ou nada possuir de bens materiais, foi traidor por ser “rico” (de espírito).

Matéria não faltaria para escrevermos um longo tratado sobre este versículo 20, e numerosos são os autores conceituados que discorrem com precisão de conceitos a respeito dessa bem-aventurança. Para os efeitos deste artigo, basta focalizar o quanto a riqueza ou a pobreza devem ser assumidas como meios de atingir a santidade. O importante não é ter ou não dinheiro. A questão se põe em como dispor dele para adquirir o “Reino de Deus”.

O grande mal de todos os tempos é o de almejar a fortuna por puro gozo da vida, e não para melhor servir a Deus. E, debaixo desse prisma, não vem ao caso ser rico ou pobre, porque o primeiro desprezará o segundo, este invejará o outro e ambos incorrerão na sentença contida no versículo 24: “Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação”.

Por essa razão, é absolutamente preferível nada possuir, a cometer um pecado, ou até mesmo, a esfriar na piedade.

Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados (v. 21)

O Evangelista apõe a esta bem-aventurança a maldição contra os que vivem na fartura, porque virão a ter fome: “Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome” (v. 25). De onde conclui o famoso Cornélio a Lápide que, aqui, trata-se realmente de fome de alimentos, e não apenas algo espiritual.

Lázaro possuía uma das maiores fortunas
de Israel, entretanto era pobre de espírito

(Ressurreição de Lázaro, catedral
de Autun, França)

É este o mais alto grau desta bem-aventurança: suportar com resignação cristã – portanto, sem revolta, sem inveja e sem ódio – os sacrifícios decorrentes da pobreza material, isto torna o pobre um bem-aventurado.

Por outro lado, também são bem-aventurados os que têm fome de Deus. A estes últimos, Deus alimentará com a sua graça, com mais abundância, na medida do desejo de perfeição. É uma “fome”, afirma Cornélio a Lápide, que ao mesmo tempo alimenta até à fartura, pois no Céu seremos saciados de felicidade e glória.

Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir (v. 21)

Os pecadores encontram sua falsa felicidade na transgressão da lei de Deus. A estes adverte Jesus severamente, porque no dia do Juízo hão de chorar sua condenação eterna: “Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis” (v. 26). Ademais, ainda nesta terra, apesar de sua aparente alegria, vivem de tristeza, pois a consciência continuamente os acusa de suas faltas. Ao prazer decorrente do pecado sempre se segue o remorso pela falta cometida.

Mas aqueles que choram de arrependimento pelos próprios pecados, já encontram, na sua contrição, consolo e felicidade. A experiência nos ensina que o arrependimento traz alegria, e é fruto da graça de Deus.

Também os que suportam com paciência as dificuldades são bem-aventurados, já nesta vida. Pois, embora sofram e “chorem”, a paciência alcançada com a graça de Deus os envolve de suavidade e paz de alma. Pelo contrário, os que se mostram inconformados nas adversidades, esses carregam no coração uma profunda amargura.

“Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, vos carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos nesse dia e exultai, porque será grande a vossa recompensa no Céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas. (v. 22-23)

No ser humano, o instinto de sociabilidade é mais profundo e sensível que o de conservação. São numerosos os homens que enfrentam grandes perigos, e a própria morte, mais por pressão da sociedade, pelo medo do ridículo, de serem tidos por covardes, do que por autêntico heroísmo.

As perseguições violentas contra a Igreja, ao longo da História, povoaram o Céu de mártires e fazem pasmar de admiração o mundo inteiro. Às perseguições morais, é menor o número dos que resistem. No mundo de hoje, quantos perdem a Fé, por não agüentarem a pressão do ambiente de ateísmo prático que os envolve? E por isso, em nossos dias, talvez seja mais meritório proclamar a Fé diante do riso irônico de um círculo de pseudo-amigos, do que o era ante o rugido das feras no Coliseu, nos primeiros tempos do Cristianismo.

Por vezes, pior ainda do que a perseguição dos maus, é a incompreensão dos bons.

Mas, “ai de vós quando os homens vos louvarem”, acrescenta Nosso Senhor, porque este seria o sinal de nossa falta de integridade, pois o mundo só aceita as meias verdades e a virtude frouxa, nisso empregando uma forma encoberta e mais cômoda de praticar o mal.

Jesus começa o enunciado das bem-aventuranças com a promessa do Reino dos Céus, e com ela termina, para dar a entender que também com a prática das demais se alcança o mesmo prêmio, deixando subentendido o quanto elas são interligadas. Não basta praticar uma delas isoladamente, desprezando as restantes.

V – O SERMÃO DA MONTANHA NOS DIAS DE HOJE

Fundada a Igreja, com sua progressiva expansão e penetração nas capilaridades das sociedades daqueles tempos, Deus e sua lei foram colocados no centro da vida humana, numerosos foram os que passaram a praticar os conselhos  evangélicos e uma nova era brilhou sobre a terra, a do Cristianismo.

Judas, por sua ganância, apesar de pouco
ou nada possuir de bens materiais,
foi traidor por ser “rico” (de espírito)

E hoje, o que é feito dessa era? O terrorismo ameaça, os seqüestros se alastram, o roubo de crianças prolifera, o comércio de órgãos humanos se avoluma, o crime, os vícios e o desrespeito se impõem; assistimos quotidianamente à expansão de ódios, guerras intestinas e internacionais, matanças de inocentes, ao desaparecimento gradual e progressivo do instituto da família… Enfim, quanto mais haveria para enumerar! Não estaremos nós vivendo agora dias piores do que os da Antiguidade?

E por que o Sermão da Montanha não produz, hoje, os mesmos efeitos de outrora?

As raízes dos males atuais são idênticas às dos horrores da época de Jesus, que sinteticamente assim se poderiam enunciar: “a finalidade última do homem se cumpre nesta terra, por isso ele deve fruir todos os prazeres que a vida e este mundo lhe oferecem, pois Deus não existe”. Assim sendo, continua válido – e mais do que nunca – na sua integridade, o Sermão da Montanha.

Qual, então, a razão dessa insensibilidade?

Falta à humanidade uma graça eficaz que a faça, como o Filho Pródigo, ter saudades da casa paterna e querer retornar às delícias das consolações de quem ama verdadeiramente a Deus, seus Mandamentos, e ao próximo como a si mesmo.

Quiçá, depois de uma divina intervenção, melhor compreendendo e amando o Sermão da Montanha, a humanidade, convertida, abrace como nunca a perfeição e se torne realidade, assim, a profecia enunciada por Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”

1) L.-Cl. Fillion, Vida de Nuestro Señor Jesucristo, Ed. Voluntad, Madrid, 1926, t. III, p. 56.
2) J. B. Weiss, Historia Universal, Vol. III, pp. 652-657. 3) Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, 30-31.
4) Veja-se, por exemplo, Ef 4, 13; e 1 Tess 4, 3 e 7.
5) Apud S. Tomás de Aquino, Catena Áurea, in Lucam.

(Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro/2004, n. 26, p. 6 à 12)

 

Pe. João Clá Dias

Maria wakuswenga, yi kombeleli!

A Devoção a Nossa Senhora em Moçambique

Foi em torno de Nossa Senhora que se reuniram os primeiros membros da Igreja nascente. E não poderia ser de outro modo, pois Ela foi aquele farol radiante pela sua fé, que – mesmo ao pé da cruz e também durante os três dias em que Nosso Senhor Jesus

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Cristo esteve sepultado brilhava intensamente. Foi também, reunidos em oração no Cenáculo – junto de Maria – que os
Apóstolos receberam o Espírito Santo. Assim, ao longo dos séculos, os fiéis de todos os tempos foram vendo em Maria Santíssima aquele caminho seguro para chegar a Jesus; aquele auxílio infalível nas dificuldades mais perplexitantes; aquele consolo nas aflições mais atrozes; aquela que é vida, doçura e esperança nossa. Desta forma, na medida em que a Igreja ia se expandindo pelos continentes, também se difundia a devoção a Nossa Senhora.

Uma rápida pesquisa poderá talvez surpreender a algum observador ao constatar o quanto a devoção a Nossa Senhora é marcante aqui na África.

Tomemos a esse título, Moçambique.

O país têm 12 dioceses. Destas, 7 têm a Virgem Santíssima como padroeira.  Mais de 90 paróquias em todo o país são dedicadas sob algum título de Nossa Senhora. Esse número seria ainda maior se considerássemos as Comunidades. Ao longo do mês de maio,  intensifica-se a reza do terço que, de modo geral é recitado todos os

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dias nas igrejas, antes da Missa. As  legionárias de Maria são numerosas, atuantes e dedicadas. Há um Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Namaacha (Arquidiocese de Maputo) que recebe milhares de peregrinos no dia de sua festa. Centenas deles fazem a peregrinação caminhando deste Maputo até o Santuário (70 km até chegar ao alto de uma montanha). Outros provém de lugares mais distantes.  O número desses peregrinos cresce a cada ano. Na última festa, a procissão decorreu sob forte chuva e nem assim os mais de 20 mil peregrinos diminuíram o seu fervor.
No continente da esperança, que é a África, essa esperança é haurida de modo particular naquela que foi, é e será sempre a esperança nossa: Maria Santíssima.

Maria wakuswenga,  yi   kombeleli! (Maria, cheia de graça, rogai por nós!)

A páscoa do futuro

Padre Hamilton2.jpgPor mas ateizada que esteja a sociedade em nossos dias, sob um pretexto ou outro ela se deixa tocar por algumas festas religiosas, como Natal ou Páscoa. E não apenas nos aspectos comerciais de que o nefando consumismo as reveste, mas nos seus aspectos espirituais mesmo. O tesouro infinito das graças compradas pela Redenção continua a sustentar as almas. É o que se nota em diversos países, onde as manifestações dos fiéis fervorosos se revestem de aspectos singulares; por exemplo, na Espanha.

 

É difícil não se encantar com os magníficos pasos da Paixão do Senhor. Vê-se nos múltiplos andores que saem às ruas nos dias da Semana Santa um acumular de arte sobre arte, um desejo de aperfeiçoar as expressões de piedade e afeto, de requintá-las, de torná-las reais. Sim, torná-las reais. Pobres homens do século XXI! Não percebem que para tornar reais as demonstrações de apreço pelo sobrenatural devem procurar a chave no seu próprio interior. Aí, ainda que com poucos recursos, consegue-se tudo. E quando os meios materiais não faltam, o que se pode obter? Mas a alma do ganancioso homem destes dias está por demais ocupada com aspectos materiais: precisam ganhar dinheiro para viver, cuidar da saúde para ganhar dinheiro, divertir-se para não se cansar de ganhar dinheiro, organizar-se, estudar, debater, promover a arte para criar os meios para gastar e reaver o tão famigerado dinheiro. É em função deste vil elemento que vive – e se perde – a tão desenvolta e culta sociedade moderna.

Por contraste, considere-se a Semana Santa em um distante rincão da África, um lugarejo perdido no mato, pobre e inculto. A igreja não é mais do que uma choupana, provavelmente sem bancos. As imagens, quando existem, são do mais elementar artesanato. Ornatos, perfumes de incenso, flores, são luxo raro. Mas, então, como realizar as sagradas cerimônias de Semana Santa, se faltam totalmente os meios materiais? Encontrando quem se disponha a vivê-las antes na alma do que no corpo. E existem pessoas assim. Foi o que se viu através de algumas fotos de um dedicado apostolado feito pelos Arautos do Evangelho em Moçambique. O mais luxuoso do ambiente eram os paramentos sacerdotais e os hábitos dos Arautos que, como sempre, exprimiam seriedade, dedicação, desapego, alegria, virtude. O restante era um povinho exultante de contentamento, dignificado pelos mistérios que celebrava, estuante de esperança implícita em seus generosos sorrisos.

Um outro aspecto da Semana Santa se pôde observar, também através de reportagens fotográficas, na província de Sucumbíos, Equador, atualmente sob os cuidados pastorais da Sociedade Virgo Flos Carmeli, dos Arautos do Evangelho. O piedoso público equatoriano literalmente vibrou de alegria nas cerimônias da Paixão e Ressurreição do Senhor, realizada em Nueva Loja. Neste lugar, já com alguns poucos recursos materiais, foram organizadas lindas cerimônias, dentro da mais alentadora ortodoxia católica, em que se notavam, no público presente, fervor, enlevo, desejo de servir, desejo de imitar e seguir Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Mãe Santíssima; e nas fisionomias infantis, além de inocência, muita determinação.

Mas, o suprassumo das cerimônias nesta Páscoa foi o que se pôde viver na Igreja dos Arautos do Evangelho, na Serra da Cantareira. Oh! Quão bom seria se uma multidão milhões de vezes maior do que a que se aglomerava na igreja nestes dias pudesse ter vivenciado a Paixão do Senhor como os que ali estavam.

Os comentários a respeito destes eventos dividem-se em dois grupos: os exprimíveis e os inexprimíveis. Destes últimos só poderão tomar conhecimento os que participarem no próximo ano e receberem as graças derramadas em profusão nessa ocasião. Quanto ao exprimíveis, para não afogarem o leitor por sua superabundância, serão considerados em sua ordem cronológica.

Na quinta-feira santa, dia da instituição da Sagrada Eucaristia, uma recolhida atmosfera de alegria e piedosa expectativa tomava conta dos fiéis, constituídos, na sua maioria, por membros dos Arautos do Evangelho e também por numeroso público da Paróquia Nossa Senhora das Graças.

A igreja estava impecavelmente limpa. O piso de pedras coloridas brilhava e, sobre ele, como sobre um espelho, se iniciou o cortejo de entrada. Era de impressionar o número e a compenetração dos sacerdotes Arautos. Só para assistir a este cortejo teria valido a pena estar ali. Com imaculados paramentos brancos, deslocavam-se mais ou menos como se imagina que anjos se deslocariam: com garbo, com recolhimento, com seriedade, e muita piedade. De seus lugares no presbitério concelebraram a Santa Missa, a que o riquíssimo cerimonial desenvolvido pelos Arautos deu um brilho extraordinário.

Toda a movimentação de acólitos, leitores, diáconos era feita com muita leveza, mas, ao mesmo tempo, com certas características que bem transmitiam o desejo que esta família de almas tem de ser Igreja realmente militante. A palavra chave da tocante homilia foi a consideração do sagrado dito de evangelista, comentando Nosso Senhor “E tendo amado os seus, amou-os até o fim.” E o sacerdote repetia comovido várias vezes: “Até o fim vos seguiremos, Senhor! Até o fim!”

Padre Hamilton3.jpgO mais tocante, porém, ocorreu ao final da celebração, quando, após a transladação do Santíssimo Sacramento ao Monumento – que, aliás, constituiu um capítulo a parte, com o Santíssimo levado sob uma rica ombrella precedida por dois turiferários que caminharam de costas o tempo todo, incensando continuamente o Rei dos Reis -, ao voltarem, iniciaram a desnudação dos altares. A luz das doze tochas que tinham acompanhado o Senhor foram apagadas uma a uma, o turíbulo foi apresentado vazio, os castiçais e toalhas foram retirados, e se passou do auge dos cânticos de alegria, magistralmente entoados pelo coro e orquestra dos Arautos, para o silêncio das vozes e o som fúnebre da matraca. Iniciava-se a Paixão.

Esperava-se para a Sexta-feira Santa uma homilia que lembrasse a todos os sofrimentos do Redentor, os deveres daí decorrentes, etc., como só ia acontecer nesta augusta ocasião. Mas a sensibilidade mística dos Arautos deixou diretamente à graça divina esta função. Para dar ocasião à ação da Providência nas almas, organizaram uma belíssima apresentação da leitura da Paixão, cantada no melhor e mais autêntico gregoriano por um grupo de seminaristas e sacerdotes Arautos. E Deus fez a Sua parte. A graça tocou realmente as almas, e em muitas fisionomias as lágrimas foram testemunhas disso.

Muitos outros aspectos haveria que comentar: a prosternação do jovem sacerdote ao início da cerimônia, momento em que ele intercede, pedindo perdão pelos pecados de todos, o descerramento do grande Crucifixo, acompanhado do eloqüente cântico “Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a Salvação do mundo…”, que convidava à adoração, e, ao mesmo tempo, a abraçar a cruz individual… e tantos outros que ficam na memória e no coração.

Esta atmosfera de convite à santidade, à entrega radical a Deus, à união a Jesus sofredor para o resgate do mundo, perdurou durante todo o sábado, em que a igreja, de luto, esteve fechada. Na noite deste dia, porém, com a cerimônia iniciada em meio a trevas, um eloqüente sermão versando sobre a incondicionalidade do católico em nossos dias, para assemelhar-se inteiramente ao Divino Redentor, teve como cadre perfeito uma artística profusão de flores e velas que adornavam o presbitério.

Padre Hamilton1.jpgGaudium magnum annuntio vobis! Foram as palavras ditas pelo diácono ao celebrante. E esta grande alegria foi sentida por todos os presentes. Cristo ressuscitou realmente, aleluia! Ah! Que suspiros de alívio! Que gáudio autêntico! Que felicidade! Será que alguma vez na vida os ateus ou os ímpios chegam a experimentar profundamente estas consolações?

Dos sermões do tríduo da Paixão, três palavras ficaram: “Até o fim, Senhor, até o fim vos seguiremos”, “Tudo está consumado.” “Incondicionalidade”. A Providência tinha cumprido sua função. A mensagem foi dada. Cumpre aos fieis, agora, aproveitar-se dela.

Igualmente, das três contemplações sobre a Paixão e Ressurreição do Senhor feitas aqui, podem-se tirar três elementos para o futuro da Igreja e do mundo: da Espanha, a requintada arte religiosa, da África e de Sucumbios, a sede do maravilhoso, do bom, do belo, do verdadeiro que ainda há nos povos, e das cerimônias nos Arautos do Evangelho, a pureza da doutrina revestida do mais atraente universo de símbolos, e alicerçada na autenticidade de uma vida de virtude, de desinteresse pessoal, de amor profundo e sincero por Cristo e por Sua Igreja. Que possamos, pelo bem das almas e pela glória de Deus, ver realizada, o quanto antes, a soma destes preciosos elementos, para que o Sangue de Cristo, generosamente derramado sobre o mundo, seja totalmente aproveitado.

Elizabeth Kiran

Um tesouro em potencial

Primeira Comunhao

Não há entres os seres racionais, sobretudo, quem tenha lucidez mental razoável, alguém que não reconheça a existência dum escrínio de valores morais e de beleza admiráveis nas almas das crianças e no ser delas de modo geral: Inocência isenta de qualquer fraude, pureza virginal inerente ao estado infantil que, é propício para tornar os seus corpos morados do Espírito Santo, e reino dos Céus, como dissera Nosso Senhor, Jesus Cristo: “Deixai vir a mim os pequeninos porque deles é o reino dos Céus”; as crianças são também portadoras de lábios finos como a prata, dos quais, a verdade lhes floresce, como florescem as rosas numa roseira! No interior das suas almas há uma felicidade decorrente da paz de consciência, de quem não defraudou a ninguém; em última análise, elas são como uma água cristalina que flui desvencilhada! Porém, a água cristalina colocada num recipiente envenenado, resulta numa fatal bebida para quem a tomar!

A pergunta é: As crianças, com tudo quanto elas têm de maravilhoso, como acima descrevemos, são como uma água cristalina que está num depósito límpido ou num recipiente envenenado?

Para responder a esta questão devemos fazer uma especulação da sociedade na qual vivemos que, indubitavelmente, pode-se afirmar que está imerso na inversão de valores morais: o feio passou a ser aceito como o belo; a preservação da pureza corporal passou a ser sinônimo de “antiquariato”; a libertinagem passou a ser cognominado de “liberdade” o avanço tecnológico possibilitou às crianças o conhecimento de coisas inerentes a idade madura ainda na precocidade, enfim, assim, seria possível enumerar tantas outras coisas! Ora, isso constitui uma gigantesca agressão para as crianças, em todos os aspectos imagináveis. Daí a imperiosa necessidade de tomar atitude de defesa, em prol delas, à guisa de uma mãe que redobra o seu desvelo quando discerne um perigo iminente que se arma contra um filho. É neste panorama caótico que o Projeto Futuro e Vida acreditando na realidade de que: as crianças são um potencial tesouro para o futuro! E por elas procuram realizar incansavelmente o Projeto Futuro e Vida, que se volta mais espontaneamente para protegê-las nos seus aspectos mais débeis.

 Em estrita colaboração com as diretorias dos diversos colégios da Cidade de Maputo, os Arautos atuam junto aos alunos do ensino primário, com o intuito de descortinar um horizonte de princípios extremamente vitais para as crianças, cuja ingenuidade e falta de critérios para distinguir entre o belo e feio, o erro e a verdade, e o bem e o mal os fariam prevaricar inevitavelmente e perder o seu tesouro.

O projeto Futuro e Vida que os Arautos de Moçambique realizam, de modo particular, consiste no seguinte: Fazer uma encenação teatral, na qual se demonstra com muita evidência os benefícios de uma criança que aceita a correção; as vantagens que a ordem da natureza das coisas conseqüentemente oferece aos que procedem corretamente; os malefícios que há no pecado e os trágicos e desastrosos efeitos do mesmo; as castas belezas que existem na prática das virtudes e dos mandamentos da lei Divina.

10 anos de uma epopéia

O Carisma de um fundador

 O fundador é um homem providencial capaz de discernir a oportunidade de um serviço necessário para o caminhar do povo de Deus. Ele considera o Carisma que a Providência lhe dá. Ele ama esse dom e o deseja. É ele quem aglutina almas em torno do Carisma e é quem mais o serve: ele é o primeiro, em tudo.

Foi o que aconteceu com Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias.

Ele teve sempre seus olhos postos naqueles que o “precederam com o sinal da Fé” e sonhava com a realização do cumprimento de sua vocação. Nessas circunstancias, a Providencia Divina colocou em sua alma a semente que fez gerar o fundador e o perfil de seu carisma.

Conhecendo esses desígnios, Monsenhor João os amou e desejou, mesmo em ocasiões difíceis. Consagrou-os a Nossa Senhora e advogou a urgente realização deles para a maior Glória dEla.

Rogou e pediu a Deus por isso: pediu muito. Pediu tanto que a Providencia logo fez com que seus desejos fossem realizados.

Com as bênçãos da Santa Igreja, o Santo Padre o Papa João Paulo II reconheceu esse novo carisma e erigiu os Arautos do Evangelho como Associação Internacional de Fiéis de Direito Pontifício. Era o dia 22 de fevereiro de 2001, comemoração da Cátedra de Pedro.

Nesse dia, há dez anos, o sonho de Monsenhor João tornou-se realidade.

Como afirmou o Cardeal Jorge Maria Mejía, em Missa no altar da Cátedra de Pedro: a Associação adquiriu “com a Cátedra de Pedro, com o centro da Igreja Católica, uma relação especial”. Os Arautos se tornaram o “braço do Papa”.

Com este vínculo íntimo e particular com o “Doce Cristo na Terra” e sob a orientação segura de seu Fundador, a obra dos Arautos não cessou de se expandir por dezenas de países. A compreensão cada vez maior do próprio carisma favoreceu novos desdobramentos dentro da sua família religiosa.

Entre outras alegrias dessa década, os Arautos do Evangelho viram seu Fundador Monsenhor João ser honrado pelo Papa Bento XVI com a condecoração “Pro Eclésia et Pontífice” e com o título de Cônego Honorário da Basílica Papal de Santa Maria Maior.

Por tudo isso, damos graças a Deus e à Santíssima Virgem.

Para o Fundador dos Arautos, até que isso acontecesse, foi preciso esperar contra todas as esperanças; foi indispensável pedir e rezar. Foi necessário admirar, crer, atrair, entusiasmar, arrastar almas para Deus… continuamente.

Convívio: bem-querença, harmonia, paz.

A  África é um continte que constitui uma imensa seara para fins apostólicos.  Porém,  nos útlimos anos, tem se verificado que, a queixa que nosso Senhor Jesus Cristo fizera, há  mais ou menos, dois mil e poucos anos  atrás, quando disse: “a  messe é grande e os   operários      são poucos,” faz-se sentir de modo peremptório.

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Assim sendo, é imperioso que o escasso número de missionários que se encontra  imerso na labuta da evangelização, redobre     seu   esforço, e aumente seu zelo apostólico, a fim de melhor abarcar o  redil de Jesus Cristo, e dar signficativa réplica à situação.

Naturalmente, surgem consequências que, a seu   modo,   quebram    certas regras  que, nas vias normais teríam outro percurso, como atesta o facto seguinte, ocorrido no ano em curso que, passo a relatar: liturgicamente,  a comemoração do aniversário natalício do nosso sumo bem, Jeus Cristo, Senhor  nosso,  começa  apartir  da  missa  do  galo  no dia 24 de

Dezembbro, culminando no dia 25 do mesmo mês, e estendendo-se até  oito dias depois‑ o que segundo a   nomeclatura  dos   cânones  da  Igreja,  chama-se: oitava do Natal­.        Passado     este periodo, qualquer comemoração de carácter     solene ou de outro gênero, destoa… Entretanto, até dia oito do ano em curso, os Arautos do Evangelho de Moçambique‑ África‑ faziam ecoar apropriadas melodias natalinas, dum repertório constituido de músicas de diversos Países, tais como: Alemanha, França, Portugal, Inglaterra, Espanha, Equador, Brasil e África, para prestar homena gem  ao Divino Infante, recem -nascido e festejar aquele inesquecível dia, no qual, a Luz Divina espargiu-se sobre a terra, fendendo a mais densa escuridão da noite do pecado, e colocou o marco inaugural de uma nova era histórica, cuja civilização se dilata  até aos lugares mais recônditos  do orbe  terrestre.

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 E no tal evento estavam presentes todos aqueles que sacrificaram o dia do Natal para estar entre os  que não conheciam o sentido mais profundo do Natal, com o intuito de exalar o sobrenatural odor de Jesus Cristo, menino, criando uma atmosferra natalina, proporcionando iguarias aos menos favorecidos,  para satisfazer as exigências  do corpo, e aclimatar o espírito dos seus desfavorecidos irmãos para melhor contemplarem  e viverem as castas alegrias do Natal. Além das harmônicas músicas alusivos ao recem-nascido, Deus humanado, o presépio com  som, luzes e com peças dotadas de movimentos, foi objecto de contemplação dos mencionados

 

missionários das seguintes famílias de almas: Irmãs Dominicanas, Irmãs de Caridade, Irmãs Servas de Nossa Senhora de Fátima, Irmãs Franciscanas de Susa, famílias e simpatizantes dos Arautos.  Não há dúvidas de que, o menino Jesus compensou com graças sensíveis aos que passaram o Natal servindo-Lhe. O clima era de muita bem- querença, harmonia, paz e fraternidade.

Florescimento de novos movimentos, esperança do Papa.

Sobre o livro entrevista do Papa Bento XVI: Luz do Mundo.

“O cristianismo neste momento está desenvolvendo também uma criatividade toda nova”, afirma o Papa na primeira parte do livro de Seewald. “No Brasil, por exemplo, se de um lado se registra um forte crescimento de seitas, cometendo muito equívocos porque prometem substancialmente riqueza e sucesso exterior; por outro lado, assiste-se também a grandes renascimentos católicos, a uma dinâmica de florescimento de novos movimentos como, por Clipboard02exemplo, os Arautos do Evangelho, jovens cheios de entusiasmo por haver reconhecido em Cristo o Filho de Deus e desejosos por anunciá-lo ao mundo”, expressou o Papa.

“O bispo de São Paulo – continuou o Santo Padre – me disse que naquela cidade se assiste a um nascimento de cada vez mais novos movimentos católicos. Existe, dessa forma, uma força de mudança e uma nova vida”.

No livro de Seewald há várias referências à realidade eclesial brasileira e da América Latina. Bento XVI faz um rápido balanço ao jornalista alemão sobre os cinco anos de seu pontificado e assinala que as viagens apostólicas não foram um “espetáculo qualquer”. Como um de seus êxitos, o Papa inclui a visita ao Brasil em 2007, que coincidiu com a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latinoamericano e do Caribe, em Aparecida, onde foi “iniciada a Missão Continental”, que agora é realizada nos programas pastorais das dioceses de todos os países da região.

Dessa viagem, o Santo Padre recorda também o encontro na “Fazenda Esperança”, um centro de recuperação para dependentes químicos; casa que se tornou modelos para muitos outros lugares.

Sobre a viagem ao Brasil, o Papa observou ainda a “consciência” de que a “Igreja Católica vive e é vigorosa”.

Gaudium Press – 2010/11/29

As irmãs: alegria e pobreza, unidas pela fé católica

Narram às crônicas que os primeiros portugueses tendo atracado nos litorais do Índico, na costa moçambicana, depararam-se com negros que, longe de quererem usar da violência, ofereciam seus aposentos aos recém chegados.

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“Terra de boa gente”, foi a exclamação que floresceu de seus lábios, vendo-se tratados com tal hospitalidade. Boa terra para o plantio do Evangelho.  Tomando os implementos da fé, foram se adentrando por aquelas selvas, lançando as sementes da Boa Nova, constituindo assim pequenas
comunidades cristãs.

DSC02244 Seguindo os passos dos primeiros missionários, penetrando na mata,  os Padres Carmelitas trazem consigo as alfaias litúrgicas para uma muito especial Celebração. Quanto mais sulcava o areal e a erva dos caminhos; quanto mais se afastava dos bairros, aldeias e residências, próximos estavam a chegar
ao seu destino. Depois de muito penetrar naquela região inóspita, descortinou-se finalmente no horizonte uma pequena Capela. Era ali o ponto terminal.

Chegamos a Comunidade Santo Isidoro de Gumbane. De fato, essa capelinha dista cerca de 30 km da Matriz – Paróquia da Sagrada Família da Machava – sendo no conjunto das 9 capelas, a mais
afastada e em condições mais precárias.

     Hoje será uma dia muito especial na Comunidade.  Na celebração que se iniciará dentro de alguns momentos, serão acolhidos no seio da Igreja 7 novos membros através do Sacramento do Batismo.  Destes, 5 receberão a 1ª. Eucaristia e um casal celebrarão o seu matrimônio.

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     Suspendendo a cruz em um de seus ramos, a massaleira ofereceu uma generosa sombra para os participantes da cerimônia, pois o pequeno edifício não comportaria tanta gente, pois muitos eram os convidados. Aliás, inclusive  a  Banda dos Arautos do Evangelho esteve presente, acompanhando com os seus acordes a comovente celebração. Foi debaixo dessa frondosa árvore que decorreu a Missa e depois o almoço. Para esta importante ocasião, contribuíram muitos dos paroquianos que ofereceram  fraternalmente o seu valioso auxílio para proporcionar àqueles irmãos na fé um momento de alegre e inesquecível convívio. Trouxeram desde mesas e cadeiras, pratos, talheres e tudo o necessáriopara uma improvisada refeição, até as vestimentas que os novos irmãos usariam para receberem os sacramentos.
       

Um dia de muita alegria na longínqua Comunidade Santo Isidoro que sendo tão pobre, entretanto se fez rica por viver sob os ditames da Fé Católica.

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