O Menino Jesus no hospital!

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No último dia 21, o Hospital Geral da Machava em Maputo, Moçambique,
celebrou a Natividade do Menino Jesus.

Para esta iniciativa, além da Diretora do Hospital, concorreram
inúmeras pessoas, tais como o Sacerdote Capelão, Pe. Amine CM, as
Irmãs Religiosas e muitos voluntários que se dedicam a esteh3
estabelecimento que é voltado para o combate a tuberculose,
enfermidade que ceifa muitas vidas neste país.

Realizada em um dos salões do Hospital, iniciou-se a Santa Missa, da
qual participaram a Direção, diversos médicos, enfermeiros e
funcionários, como também aqueles doentes cujo estado lhes
possibilitava estar presentes.

Arautos em África
Entretanto, como a maior parte dos doentes não puderam sair de seus
leitos, as zelosas Irmãs, seguidas pelos Arautos do Evangelho com sua
Banda Musical, dirigiram-se às várias enfermarias levando o Menino
Jesus àqueles que sofrem. Nesta ocasião, após uma breve oração,
deixavam uma medalha ou uma estampa com cada um. Assim, mesmo os mais
enfermos, puderam de alguma forma participar do Natal do Senhor e de
suas alegrias.

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Na enfermaria das crianças houve uma festa própria à sua idade: uma

grande sala toda enfeitada com bolas coloridas e diversos adornos;
mesas repletas de saborosas iguarias era um espetáculo que regalava a
todos.

Uma peregrinação de três horas por S. Clemente!

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Na última semana do passado ano litúrgico a Igreja fez memória de São
Clemente, Papa. Sendo um dos primeiros sucessores de São Pedro, seu
pontificado se situa entre os anos 92 e 101 da era cristã.
Em Moçambique, na Paróquia Sagrada Família da Machava, um Núcleo que o
tem como padroeiro, quis celebrá-lo com muito entusiasmo, promovendo
uma semana inteira com diversas atividades na Comunidade onde se
reúnem.

Para encerramento da comemoração escolheram a Casa de Formação dos
Arautos. Assim, às 6:00 da manhã partiram em procissão desde a
Comunidade até chegarem à nossa Casa. Foram 3 horas de caminhada.

arautos_africa_monsenhor

Tendo depositado o quadro do padroeiro no altar da Capela, houve um
pequeno intervalo para recuperarem as forças e darem continuidade ao
programa determinado.

Assim, ao longo do dia, entre as muitas atividades, houve a recitação
do terço, coroação de Nossa Senhora, Santa Missa celebrada pelo
Pároco Frei Juracy, um período de convívio e, por fim – sendo véspera
do dia de Nossa Senhora das Graças – deu-se a projeção do
Audio-visual da Medalha Milagrosa.

Em seguida todos receberam a
medalha milagrosa para implorarem sempre o auxílio daquela que é a
Medianeira de todas as graças.

O homem: esse louco que não reza

A oração. O homem não é plenamente consciente da potência desse instrumento que está no alcance de suas mãos; e dizemos com segurança que não o conhece, pois do contrário usaria com mais frequência.

“Através da oração, falamos com Deus e Deus fala conosco, aspiramos a ele e respiramos nele, e ele nos inspira e respira em nós”, disse São Francisco de Sales, em seu Tratado de Amor a Deus. A oração é, portanto, um viver em Deus. Daí que se entende quando se fala que a oração, feita nas devidas condições, move o coração de Deus. E quem tem a capacidade de mover a Deus pode se unir à capacidade onipotente Dele.

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Portanto, dizemos que o problema dos cristãos não é que não têm conhecimento – implícito ou explícito – do altíssimo poder da oração. Mas muitas vezes a agitação do cotidiano, o que chamaríamos de “naturalismo vivencial” causado pela impregnação dos critérios do mundo, – nos afasta da utilização necessária para se falar com Deus, nos faz esquecer a sua importância vital.

As preocupações do cotidiano, do trabalho, da atenção com a família, as exigências da vida social, parecem servir-nos de desculpas para tirar do nosso tempo esses minutos necessários para nos reunirmos com o Criador.

Mas cremos que o problema de fundo é que o naturalismo do mundo vai penetrando de forma imperceptível em nossas almas e nos vai fazendo esquecer que necessitamos recorrer constantemente a Deus, e confiar menos em nossas forças meramente humanas.

Aberta ou veladamente, o mundo nos “grita” que as coisas ocorrem simplesmente por causa daquelas forças naturais que podemos perceber com nossos sentidos. E isso é mentira. Muito acima do que um simples homem é capaz de fazer, está a ação de Deus e seus santos, por meio de sua graça e a atividade dos anjos bons e maus.
Estes são os elementos que primordialmente dirigem a história, também a nossa história pessoal, e a todos eles se aceita ou se rejeita por meio da oração.

De quantas calamidades não nos teremos vistos livres porque nosso anjo da guarda nos protegeu, ou porque a rogos da Virgem Maria, Cristo interveio em um momento decisivo? Quantos são os benefícios que recebemos, não porque os tenhamos obtido com nosso esforço ou merecido de alguma maneira, mas que nos foi dado gratuitamente pelas mãos divinas, porque alguém rezou por nós? Muitos, certamente. Saberemos no dia de nosso juízo.

Entretanto,se é certo que Deus pode nos auxiliar sem que o peçamos, Ele normalmente exige esta imprecação que, além do mais, nos une a Ele. E existe algo que definitivamente não se consegue se não for com o recurso da oração: a prática da virtude, requisito necessário para alcançar a vida eterna.

Não podemos viver como devemos viver sem a graça obtida pela oração. Não podemos, é necessário repetir. “Nossas meras forças naturais são insuficientes”. Isso é algo que tem que ser gravado com letras de bronze fundido no espírito. Ainda que nosso orgulho e autossuficiência busquem cobrir esta verdade, ela sempre será confirmada pelo fracasso de uma vida que não recorreu à oração.

Então, para contradizer essa voz tênue ou forte –externa e interna– que repete sem cessar que não necessitamos da oração, devemos encontrar e lembrar constantemente as razões para orar, para rezar, seja participando da oração litúrgica ou realizando a oração privada.
E para isso reproduziremos dois textos escolhidos de santos, do elenco que apresenta o ilustre dominicano Frei Antônio Royo Marin em sua importante obra “Teologia da Perfeição Cristã”:

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– São Boaventura: Se queres sofrer com paciência as adversidades e misérias desta vida, seja homem de oração. Se queres alcançar virtude e fortaleza para vencer as tentações do inimigo, seja homem de oração. (…) Se queres viver alegremente e caminhar com suaivdade pelo caminho da penitencia e do trabalho, seja homem de oração. (…) Se queres fortalecer e confirmar teu coração no caminho de Deus, seja homem de oração. Finalmente, se queres desarraigar de alma todos os vícios e plantar em seu lugar as virtudes, seja homem de oração: porque nela se recebe a união e a graça do Espírito Santo, a qual ensina todas as coisas. E além disso, se queres subir até a altura da contemplação e gozar dos doces abraços do esposo , exercite na oração, porque este é o caminho por onde a alma sobe até a contemplação até o gosto das coisas celestiais.

– São Pedro de Alcântara: Na oração a alma se limpa dos pecados, apascenta-se a caridade, certifica-se a fé, fortalece-se a esperança, alegra-se o espírito, derrete-se as entranhas pacifica-se o coração, descobre-se a verdade, vence-se a tentação, foge a tristeza, renovam-se os sentidos, repara-se a virtude enfraquecida, despede-se a tibieza, consome-se a origem dos vícios, e nela saltam centelhas vivas de desejos do céu, entre as quais arde a chama do divino amor. Grandes são as excelências da oração, grandes são seus grandes privilégios. Para ela estão abertos os céus, para ela se descobrem os segredos, e a para ela estão sempre atentos os ouvidos de Deus.

Por Saúl Castiblanco

MARIA, MÃE DA UNIDADE

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Peregrinação anual da Legião de Maria ao Santuário de Namaacha

O que é mais belo: contemplar Maria durante os 9 meses em que tivera a felicidade de levar o próprio  Deus, ou nela pensar circundada pelos apóstolos em busca de diretrizes para sua missão?   A experiência de Deus em Nossa Senhora ou a transmissão dessa experiência em benefício de muitos?

Não querendo dar algum parecer de momento, deixamos esta questão em aberto à devoção de cada um. Cumpre-nos apenas dizer que os dois aspectos constituíram a realidade vivenciada por Nossa Senhora, no passado dia 15 de  outubro, no Santuário de Namaacha,  por ocasião da peregrinação anual da Legião de Maria.

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Na sua homilia, o  Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maputo, Dom João Carlos, fez uma meditação do tema da  peregrinação,  Maria, Mãe da Unidade e mostrou o quanto a presença de um não dispensa a outra. ‘’ De facto, dizia ele, a verdadeira unidade que tanto almejamos tem como fonte o próprio Deus. E Maria Santíssima como santuário e templo da Santíssima Trindade, ela, em sua humanidade puríssima, experimentou, como mulher, os efeitos do mistério eterno da unidade trinitária em seu seio, em sua alma, em todo o seu ser.  Ela pôde unir-se como ninguém à dinâmica de amor, das três pessoas da Trindade. Deste modo ela foi e é, templo da Unidade mais perfeita do qual jorra a fonte de toda a unidade: a Santíssima Trindade, as três pessoas distintas na perfeita unicidade, um só Deus.’’

E ainda: ‘’É próprio do amor querer se unir, estar junto, estar em comunhão, ser um em comunidade. Maria também o demonstrou, ao regressar à casa com o discípulo amado que o seu Filho a entregou, ao conviver com os apóstolos na crucifixão, ao aguardar em oração no Cenáculo junto com os apóstolos, a descida do Espírito Santo; quis se fazer presente em todos os momentos do nascimento da Igreja, e o quer até os dias de hoje, quando se torna medianeira nossa de todas as graças’’.

Arautos do Evangelho

Ao término da celebração que contou com milhares de Legionárias, todos voltaram às suas casas  imersos naquele clima todo sobrenatural do dias de convívio sob a presença de Maria Santíssima, revigorados na sua fé  e com a determinação de fazerem com que muitos outros possam se beneficiar destas bênçãos.

Dirson Castigo Machaieie

Por um país livre de sangue nas estradas

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Eis o lema da XXIX  Jornada Nacional de Trânsito, que teve a sua abertura no dia 24 último.

Com o intuito de minimizar o elevado índice de derramamento de sangue por razões automobilísticas, a Polícia da República de Moçambique (PRM) tem anualmente feito a sensibilização nas estradas de modo a prevenir  tanto aos condutores como aos peões, de tingir o asfalto de sangue.

Na Província de Maputo deu-se  a abertura da Jornada no distrito de Boane, iniciando com uma passeata que partiu do Comando distrital até a Escola Secundária de Boane, sendo percorridos cerca de 2 km.

Com  a sirene accionada, tomava a dianteira a viatura da polícia, chamando assim, a atenção do público que, de olhos arregalados, contemplava o belo cortejo.

DSC08133A presidência deste ato coube ao Comandante Provincial da PRM, que seguido do pessoal da polícia, postou-se  bem próximo à  Banda dos Arautos do Evangelho, que pomposamente abria a passeata.

Inúmeros estudantes e policiais participaram do desfile portando grandes cartazes alusivos ao acontecimento.

Com esta pequena cerimônia, damos por iniciada a XXIX Jornada Nacional do Trânsito”, foram as últimas palavras do discurso feito pelo Comandante, convidando a todos os policiais a arregaçarem as mangas para, no breve espaço de uma semana,  se dedicarem à conscientização dos condutores de veículos para sua grande responsabilidade.

Dirson Castigo Machaieie

A despedida do Padre Rômulo

A Obra Dom Orione em Moçambique celebrou no dia 14 último – festa da exaltação da Santa Cruz – a despedida de seu Reitor, Pe. Rômulo, que por ordem de seus superiores deve ocupar outras funções que dispõe essa grande messe.

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Após 3 anos de intensas atividades no sentido de trazer o bem-estar aos enfermos – nos quais o Cotolengo conheceu verdadeiros progressos tanto na atenção dispensada aos doentes como no melhoramento de seus domicílios e até na manutenção geral – cede ele o lugar ao Pe. José
Geraldo, cessante pároco da paróquia São João Bosco do Bagamoio, a qual por sua vez, estará ao encargo do Pe. Paulino, que esteve como missionário em Quénia.
Após a Missa de despedida, foi entronizada a imagem da Virgem Maria numa pequena gruta preparada quase ao centro do recinto, a quem tanto os visitantes como os visitados do Cotolengo dirigirão a sua primeira saudação.
Depois da entronização de Nossa Senhora, houve um breve espaço de convívio que foi seguido da despedida. Enquanto muitas mãos se abanavam em sinal de adeus, de alguns rostos corriam as lágrimas, enfim, todos manifestando benquerença ao Pe. Rômulo.

Dirson Castigo

Sofia e Edi a verdadeira alegria!

Gaudium Press – Espirtualidade

 

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Sofia e Edi Eles apareceram de repente. Estávamos perto da estrada de ferro que levava à antiga Transvaal, na cidade de Maputo.

 Tarde ensolarada e cheia de luz como frequentemente são as da capital moçambicana. Eu acompanhava um missionário Arauto que mora na cidade. Fomos levar as nossas roupas para lavar, numa senhora que presta esse serviço já há algum tempo. Nosso carro parou junto a uma casa, ao lado da linha férrea. Muita gente caminhava, por ali, bordejando aqueles trilhos: trazendo objetos na cabeça ou nas mãos, com roupas coloridas, olhos vivos e alegres. Era fim do dia. Fim, muitas vezes nos lembra decadência, tristeza, decomposição.

Lá não! Havia qualquer coisa de esperança, de futuro dentro daquele panorama onde a luz fugia e ao mesmo tempo brilhava. Sobretudo isso se acentuou quando vi os dois pequenos interlocutores: Sofia e Edi.

Enquanto meu companheiro entrou na casa para deixar o material, fiquei sozinho na carrinha – expressão portuguesa que designa uma perua que utilizamos para o nosso apostolado. Já velha, branca, com o adesivo de nosso escudo de um e de outro lado de ambas as portas da frente.

As duas crianças chegaram sem fazer barulho e sorriam sempre. A princípio um pouco tímidas e depois falantes, abertas e simpáticas: características do povo moçambicano. Estavam encantadas com o escudo da Virgem Maria. Passavam suas pequenas mãos sobre ele e me olhavam com curiosidade.

– Qual é seu nome? Indaguei. – Numa voz cantante: Sofia! A menina era só sorriso, olhos grandes, pequenas tranças caiam de sua cabeça adornada por minúsculas flores, de cor branca.

 – E o seu? Ao menino. – Edi. Apesar de ser mais novo, era mais forte e também vivo e inteligente.

 – Quantos anos têm? Sofia fez um gesto com os dedos da mão direita, mostrando cinco pequenos dedos. O menino errou primeiro, e depois resoluto fez sinal que eram quatro. Perguntei-lhes sobre a religião: quem era Maria, se já sabiam fazer o sinal da cruz, onde moravam. Eles muito prestativos respondiam, com alegria, com sorriso franco. Nosso diálogo foi breve, pois o motorista havia chegado e partimos.

 Ficou-me na lembrança as mãos dos pequenos que se agitavam no ar e a pureza feliz daquelas almas, que se alegraram com tão pouca coisa: algumas palavras e um pouco de afeto.

 O carro tomou a direção de nossa casa, no bairro de Nhencobe, e os dois pequenos me traziam uma indagação: por que tanta alegria? A resposta saltou mais que evidente: “O cristão segue o Senhor quando aceita com amor a sua cruz”.

 A alegria que não passa, só Deus pode conceder. O sucesso social e o bem estar não bastam. Mas é o misterioso caminho da cruz, que proporciona a verdadeira felicidade. Isso explica, apesar de tantas dificuldades e carências materiais em que meus pequenos protagonistas estavam inseridos, a felicidade que viviam.

Traziam em seus pequenos corações a chama da fé, da inocência, do amor à cruz sem saber explicá-lo por causa de suas tenras idades, mas eram felizes. Irradiavam felicidade, naquela tarde luminosa…

Lucas Miguel Lihue

Do Brasil a Moçambique

De toda a atuação dos Arautos do Evangelho, partir para terras de missão
é o que mais atrai seus membros. Moçambique é um destino
cobiçado por todos.

A Catedral da Sé de São Paulo está repleta de fiéis que esperam o início de uma celebração. Um toque de trompete corta o leve burburinho e a Catedral_.jpgmovimentação de pessoas que ainda procuram um lugar sentado, antes da cerimônia. Principia então um solene cortejo, precedendo a imagem peregrina do Imaculado Coração de Maria, que será em seguida coroada simbolicamente, enquanto os fiéis aclamam calorosamente a Rainha dos Céus. Esse ato constitui a abertura da devoção dos Primeiros Sábados, que os Arautos do Evangelho promovem na Catedral da Sé.

Após a coroação de Nossa Senhora, sucedem-se a recitação do terço, a meditação de 15 minutos e a Celebração Eucarística, enquanto as numerosas filas de confissão avançam vagarosamente, conduzindo os fiéis à reconciliação com Deus.

São muitas as pessoas que, de passagem pelo centro da cidade, entram nessa grandiosa igreja, atraídas pela movimentação ou, simplesmente, para apreciar a bela arquitetura do edifício sagrado, sendo surpreendidas por essa cerimônia de raro esplendor.

Encantados pela beleza da liturgia e da música, ou por um discreto convite da graça, muitos se deixam ficar, a fim de assistir a todo o ato. E logo nasce a pergunta: quem são esses jovens? O que fazem? Como vivem?

Uma vida dedicada à evangelização

Ao tomar contato com os arautos pela primeira vez, numa cerimônia litúrgica, dificilmente se pode ter idéia de todas as atividades evangelizadoras levadas a efeito pela instituição, que qualquer um dos consagrados, que ali participam de uma cerimônia tão solene, está disposto a empreender.

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    Cooperadores dos Arautos do Evangelho
 

Essa disposição é mais viva, é claro, entre os que constituem o ramo sacerdotal, destinado mais especificamente ao anúncio do Evangelho, e à administração dos mistérios divinos, na liturgia. Mas os desafios de nosso tempo nos levam a utilizar o maior número de meios ao alcance, para levar a Palavra a todos os homens, sem exceção, pois nossa sociedade está cada vez mais secularizada, ou seja, mais afastada de Deus e da Igreja.

Foi essa uma das razões que levaram o episcopado latino-americano, na 5ª Conferência do CELAM a lançar a grande missão continental.

Como chegar àquele que está tantas vezes próximo, mas muito distante de Deus, é um problema que não se reduz à simples transposição de um espaço. Há uma distância entre o coração do homem e o Infinito, que nem sempre é fácil de transpor… Precisa- se do auxílio da graça divina, a qual se serve com freqüência de instrumentos humanos ou materiais.

É com esse intuito, de serem simples instrumentos de Deus, que os arautos desenvolvem suas atividades evangelizadoras: as visitas da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima aos lares, o Apostolado do Oratório do Imaculado Coração de Maria, a divulgação de publicações religiosas, de estampas, medalhas, CDs de música e a própria revista Arautos do Evangelho.

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Espírito Missionário

No entanto, na alma dos arautos ressoam continuamente as palavras de Nosso Senhor aos Apóstolos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Esse mandato vibra com mais intensidade ainda naqueles que receberam as ordens sagradas, pois lhes foi impresso na alma, pelo Espírito Santo, ao lhes serem impostas as mãos, no Sacramento da Ordem. Partir em missão para terras distantes, a fim de exercerem o seu ministério sacerdotal e anunciar a Boa Nova, é para eles a maior felicidade nesta terra.

Arautos na África

Moçambique, na África austral, é uma dessas terras de missão onde os Arautos do Evangelho desenvolvem sua atividade. O fato de ser um dos países mais pobres do mundo, devido aos conflitos armados que assolaram o país durante décadas, não constitui obstáculo ao surgimento de numerosas vocações entre os jovens, os quais manifestam grande avidez de sobrenatural. E, como sempre ocorre em circunstâncias análogas, “a messe é grande, mas os operários são poucos” (Mt 9, 37). Dificuldade acrescida, ainda, pelas enormes carências materiais do país.

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 Arautos em Procissão com a imagem do Imaculado
Coração de Maria
  Arautos do Evangelho cantam em louvor ao Santíssimo Sacramento
Arautos de Maputo

Para os Arautos do Evangelho moçambicanos, onde encontrar os meios materiais para atender as centenas de jovens que são catequizados por eles, nas escolas de Maputo, a capital? E como dar formação religiosa e cultural aos vocacionados, que aspiram a uma vida de consagrados ou, mesmo, ao sacerdócio?

Pequenas e grandes dificuldades

Para nós que vivemos no mundo ocidental, habituados às pequenas comodidades da sociedade moderna, ao alcance da mão em qualquer loja ou supermercado, talvez não seja tão evidente o que significa ir para uma terra de missão, recentemente saída de uma guerra civil. Desde a alimentação precária (carne, ovos, peixe, constituem artigos de luxo e o nosso indispensável cafezinho uma raridade), proliferação de malária e de outras epidemias, dificuldades de transporte (percorrer 10 km a pé, ou mais, para ir à missa, não é considerada uma longa viagem) até a falta de algo tão comum para nós como um simples cobertor, nas frias noites de inverno, são algumas das dificuldades que é preciso suportar com naturalidade.

O Continente da Esperança

Mas para um coração sacerdotal, todas essas carências se reduzem à mínima expressão diante da grandiosidade e dos mistérios do continente africano, do vasto campo das almas a cuidar, e da avidez de sobrenatural daqueles povos. Talvez por isso o saudoso Papa João Paulo II tenha sido levado a qualificar a África como o Continente da Esperança.

Assim que chegou à casa dos arautos, em Maputo, o sacerdote arautos pôde medir a vastidão das necessidades. De imediato, teve de dar assistência a duas igrejas próximas – Mastrong e Nossa Senhora da Assunção – cujos párocos se ausentariam para fazer o retiro anual. Nova dificuldade se apresentou: embora o português seja a língua oficial, muitos só falam as línguas nativas, e a homilia teve de ser traduzida para o xangane, pois o padre apenas sabe dizer zixilii (bom dia). Porém, quando a fé do povo é grande, a diversidade de línguas ou raças deixa de ser uma barreira.

 Missa Maputo.jpg  Africa distribuiçao de Medalhas.jpg  Arautose em Africa_.jpg
Eucaristia em Maputo celebrada por um
Sacerdote arauto
  Um Sacerdote arauto distribui medalhas
de Nossa Senhora a população

Arautos de Maputo tocam em uma procissão

Além das paróquias, o sacerdote arauto teve de cuidar, também, dos arautos. Tanto dos que já vivem em comunidade na academia, onde fazem seus estudos (são cerca de 60), como os que são catequizados através do “Projeto Futuro e Vida”, nas escolas secundárias de Maputo e nas paróquias. Celebrar Missa, atender confissões, dar formação doutrinária aos jovens são atividades que ocupam largamente o dia a dia, pouco tempo sobrando para a celebração da Liturgia das Horas, adoração ao Santíssimo Sacramento e demais orações quotidianas.

O Surgimento de vocações

Para um sacerdote, é praticamente impossível restringir seu ministério aos limites do próprio instituto. Um novo carisma na Igreja é sempre um fator de atração para os fiéis, pois mais sensivelmente se nota a ação do Espírito Santo que os suscita. Foi o que ocorreu com a visita ao Arcebispo de Maputo, D. Francisco Chimoio, O.F.M. Cap. Afavelmente acolhido por D. Francisco, logo se seguiu o convite para dar um contributo ao Seminário Maior, dando palestras sobre a nova evangelização através da mídia. Tema que interessou vivamente os cerca de 100 seminaristas, por constituir um constante desafio para a Igreja de nosso tempo.

Também entre os arautos, o missionário sacerdote, que pertence aos arautos, encontrou um bom número de chamados para o sacerdócio. Mas, com a alegria de descobrir promissoras vocações para a Igreja, vieram as dificuldades e apreensões. Não seria melhor levar alguns para serem formados na Casa-Mãe dos arautos, em São Paulo? Ou, pelo contrário, seria preferível concentrar os esforços na África, apesar das carências locais? Uma e outra solução têm suas vantagens e desvantagens. De qualquer forma, o encontro com o carisma originário é de um benefício insuperável.

Foi por isso que Pe. Hamilton, ao tomar contato com a pujança de fé dos moçambicanos, optou por enviar 13 desses jovens ao Brasil, graças à abnegação de generosos doadores, a fim de fazerem uma experiência vocacional. Sem dúvida, esse intercâmbio é benéfico também para quem acolhe os visitantes, e convive com essa fé que não está maculada pelas dúvidas do racionalismo.

A África é ainda uma terra quase virgem onde a semente da fé não deu seus melhores frutos, prenunciados pela beleza e grandiosidade de sua natureza agreste, mas cheia de colorido e vida. Para que essas sementes frutifiquem é necessário regá-las com muita abnegação e oração.

A todos quantos sentirem inspiração de rezar por esses jovens, que nos próximos meses farão sua experiência vocacional, e por tantos outros que não puderam vir, por falta de recursos, eles agradecem essas valiosas orações, para que a África, de Continente da Esperança, passe a ser um continente transbordante de fé, e exemplo de catolicidade para o mundo inteiro.

(Revista Arautos do Evangelho, Out/2007, n. 70, p. 16 à 21)

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Moçambique

O moço rico do Evangelho

EVANGELHO

17 “Tendo Ele saído para Se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dEle, suplicou-Lhe: ‘Bom Mestre, que farei para alcançar a vida eterna?’. 18 Jesus disse-lhe: ‘Por que Me chamas bom? Só Deus é bom. 19 Conheces os Mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’. 20 Ele respondeu-Lhe: ‘Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade’. 21 Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: ‘Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me’. 22 Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens. 23 E, olhando Jesus em derredor, disse a seus discípulos: ‘Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!’. 24 Os discípulos ficaram assombrados com Suas palavras. Mas Jesus replicou: ‘Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas! 25 É mais fácil passar o camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus’. 26 Eles ainda mais se admiravam, dizendo a si próprios: ‘Quem pode então salvar-se?’. 27 Olhando Jesus para eles, disse: ‘Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível’. 28 Pedro começou a dizer-Lhe: ‘Eis que deixamos tudo e Te seguimos’. 29 Respondeu-lhe Jesus. ‘Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de Mim e por causa do Evangelho 30 que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna'” (Mc 10, 17-30).

Pórtico do Mosteiro de Montserrat, Barcelona (Espanha)

Aquele que chegara correndo e se ajoelhara sôfrego diante de Nosso Senhor, retirou-se triste e abatido de Sua presença. Preferiu conservar os seus bens terrenos, desprezando – fato inédito no Evangelho – o “tesouro no Céu” oferecido pelo próprio Deus.

Mons. João Clá Dias, E.P.

I – Fomos criados com uma vocação

Desde toda a eternidade, esteve prevista na mente divina a criação, no tempo, de Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto homem,1 e de Sua Mãe, Maria Santíssima.2

Mas Deus não concebeu ambos isoladamente. Queria Ele que, à maneira de uma corte, houvesse quem os servisse. Todos nós estávamos incluídos nesse ato de pensamento e fomos amados por Ele como foi revelado a Jeremias: “Eu amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor” (Jr 31, 3).

Nosso Senhor é o modelo tomado por Deus para a nossa criação, é Ele a nossa causa exemplar. Havendo de tornar possível, por Seus méritos, a nossa existência enquanto filhos de Deus, pois “todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça” (Jo 1, 16), constitui-Se em nossa causa eficiente. E, por termos sido criados para servi-Lo e adorá-Lo, é também a nossa causa final.

Fomos, em suma, concebidos em, por e para Jesus, pois “nEle foram criadas todas as coisas nos Céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1, 16).

Isto configura um chamado feito a nós desde todo o sempre, tal como afirma o Apóstolo: “Deus nos salvou e chamou para a santidade, não em atenção às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio, da graça que desde a eternidade nos destinou em Cristo Jesus” (II Tm 1, 9). Deus nos convida a fazer parte da Santa Igreja, e nos chama à santidade. Mas, junto com esse apelo genérico, somos chamados a exercer uma função específica dentro do Corpo Místico de Cristo. É uma missão que cada um tem particularmente e não será dada a mais ninguém.

O Novo Testamento nos apresenta inúmeros exemplos no chamado feito pelo próprio Jesus aos escolhidos para serem Seus Apóstolos: vê Mateus na coletoria de impostos e lhe diz: “Segue-Me” (Mt 9, 9); no caminho de Damasco, São Paulo é lançado por terra e, ao ouvir a voz que o interpelava, responde: “Senhor, que quereis que eu faça?” (At 9, 6); cheio de pasmo após a pesca milagrosa, Pedro se prosterna diante do Mestre, exclamando: “Retira-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”, e escuta a divina promessa: “Doravante, serás pescador de homens” (cf. Lc 5, 8-10).

Tal como Mateus, Paulo ou Pedro, que tudo abandonaram imediatamente para seguir o Mestre, precisamos responder com prontidão, generosidade e alegria ao chamado que Jesus faz a cada um de nós.

Este é o ensinamento contido no Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum, como veremos a seguir.

II – O episódio do jovem rico

São Marcos, tão sintético em outras passagens, mostra-se minucioso ao narrar o episódio do jovem rico. Já o primeiro versículo contém interessantes pormenores dignos de especial atenção.

17 “Tendo Ele saído para Se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dEle, suplicou-Lhe: ‘Bom Mestre, que farei para alcançar a vida eterna?'”.

Procura sôfrega do caminho da salvação

Pelo fato de vir “correndo” ao encontro de Nosso Senhor, podemos supor o quanto esse “alguém” estava sôfrego de obter aquilo que ia pedir. Certamente ouvira a pregação de Jesus e, sob o impulso de uma graça sensível, deixou-se arrebatar por Seus divinos ensinamentos. Almejando, de um lado, alcançar a vida eterna e, de outro, não tendo a certeza de merecê-la, sentiu no fundo da alma ser Jesus capaz de mostrar-lhe com segurança o caminho da salvação.

Desde toda a eternidade esteve prevista na
mente divina acriação, no tempo, de Nosso
Senhor Jesus Cristo, enquanto homem e de sua
Mãe, Maria Santíssima “Nossa Senhora com
o Menino Jesus”, por Maestro della Pradella –
Museo Amadeo Lia, La Spezia (Itália)

A própria pergunta feita por ele ao Salvador, fala neste sentido, pois, como aponta Didon, ela “revelava uma natureza superior e uma alma sincera. As doutrinas da escola sobre o mérito das obras legais, sobre a santidade pela virtude dos ritos, não satisfaziam sua consciência; certamente ouviu o Mestre falar da vida eterna com uma acentuação que o tinha penetrado”.

Daí o fato de ele correr até Jesus, ajoelhar- se e chamá-Lo de “Bom Mestre”, um qualificativo alheio aos costumes e gentilezas correntes na época. “Não se conhece exemplo de que alguém tenha chamado assim um rabino”, comenta Lagrange, acrescentando que essa saudação “ultrapassava os hábitos de cortesia então vigentes”.4

É também interessante destacar o teor da pergunta, tão diferente dos temas sobre os quais se conversa hoje em dia. Naquela época, as pessoas se preocupavam em saber como ganhar o Reino dos Céus. E nos dias de hoje?…

Sobre a pressa do jovem, observa Fillion: “Corria para não perder aquela ocasião de fazer ao Salvador uma pergunta que muito o preocupava”.5 Duquesne elogia essa atitude e a propõe como exemplo: “É com este fervor de espírito e esta rapidez de corpo, esta presteza e esta alegria espiritual que se deve ir a Jesus”.6

Jesus o ama e faz-lhe um convite: “Vem e segue-Me”

18 “Jesus disse-lhe: ‘Por que Me chamas bom? Só Deus é bom'”.

Esta resposta causa perplexidade à primeira vista, mas logo se compreendem as divinas razões que levaram Nosso Senhor a dá-la.

Não visava o Messias repreendê-lo, mas sim chamar sua atenção para esta realidade: só Deus é a Bondade e, portanto, bondade absoluta só há em Deus. Santo Efrém ensina a este respeito que Cristo “recusa o título de ‘bom’, dado por um homem, para indicar que Ele tinha essa bondade adquirida do Pai, por natureza e geração, que não a tinha simplesmente de nome”.7

Ao chamá-Lo de “Bom Mestre”, o jovem rico mostrava ver principalmente o lado humano do Messias: sua inteligência, capacidade e sabedoria naturais. Ora, Jesus quer que ele O considere não só como homem, mas sobretudo como Deus. E por isso o interpela: “Por que Me chamas bom?”.

Com essa pergunta, o convida a dar um passo a mais, como quem diz: “Estás vendo só o meu lado humano, contempla também o divino. No fundo, sem te dar conta, estás Me atribuindo uma divindade que de fato tenho, porque sou Deus. Mas toma consciência disto, compreende esta realidade com clareza e, compreendendo, ama-a ainda mais”.

Este convite é suave e altamente didático, como afirma o padre Duquesne: “Jesus apenas insinua- lhe que ele não tem a Seu respeito a noção inteira que deveria ter; e, dizendo-lhe que tal título convém somente a Deus, leva-o a entender que deveria considerar como Filho de Deus Aquele a quem ele o dá, e não como um mestre simplesmente humano”.8

19 “‘Conheces os Mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’. 20 Ele respondeu- lhe: ‘Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade'”.

Nova mostra da divindade de Jesus nos dá este versículo. Ele não pergunta ao jovem se conhece os Mandamentos, mas o afirma com certeza. A quem agora via com Seus olhos humanos, já conhecia, enquanto Deus, desde toda a eternidade. E sabia que ele praticava a virtude, observando a Lei.

21 “Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: ‘Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me'”.

Cristo olhou-o com amor e fez-lhe o mesmo convite que fizera aos Apóstolos: “Vem e segue- Me”. Comenta Fillion: “Portanto, estava Jesus disposto a admitir esse jovem entre os Seus discípulos íntimos, com os quais, seguindo-O por toda parte e em companhia do melhor e mais santo dos mestres, poderia adquirir sem tardança a perfeição pela qual conseguiria facilmente o Céu“.9 E Maldonado corrobora essa opinião:

“Que entende Cristo por ‘vem e segue-Me’? A palavra ‘vem’ parece exprimir, mais do que a simples imitação, o seguimento material: convida- o a fazer parte de seus Apóstolos e familiares”.10

“Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se
todo abatido, porque possuía muitos bens”
 “O moço rico – Litografia de Caspar Luiken
publicada em “Histó-ria celebriores Veteris
Testamenti iconibus represen-tatae” (1712)

Àquele homem, que praticava os Mandamentos, havia Deus reservado desde toda a eternidade a altíssima vocação de seguir Jesus. Para cumpri- la, era-lhe pedida uma renúncia: “Vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres“; e oferecida uma recompensa infinita: “terás um tesouro no Céu“. Cabia-lhe responder a esse chamado com inteira alegria e prontidão, como haviam feito Simão, Levi e tantos outros.

A causa mais profunda da recusa

22 “Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens”.

Entretanto, o mesmo que chegara correndo e se ajoelhara sôfrego diante de Nosso Senhor, retirou- se triste e “abatido“, porque “possuía muitos bens” e preferiu conservá-los a seguir sua vocação, desprezando o “tesouro no Céu” que o próprio Messias lhe oferecera. Fato inédito, pois os Evangelistas não narram recusa semelhante a esta.

Não pensemos, entretanto, ter sido o apego às riquezas a principal causa de sua defecção. O jovem rico praticara os Mandamentos desde sua infância, mas não na perfeição. Negligenciara, sobretudo, o primeiro e mais fundamental: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5). Como bem observa o conhecido biblista M. J. Lagrange, os preceitos mencionados a ele por Nosso Senhor “bem podem ser observados sem heroísmo. Se Jesus lhe tivesse perguntado se amava a Deus de todo o coração, teria ficado bem mais incomodado”.11

O grande pecado desse homem não foi, portanto, de avareza, mas sim de orgulho. Ao ser convidado a seguir Nosso Senhor e sentir em si a própria debilidade e insuficiência, deveria ter dito: “Senhor, não tenho forças para seguir-vos. Tenho apego a minhas riquezas e, sobretudo, faltame amor exclusivo por Vós”.

Perante esse ato de humildade, Jesus lhe teria dado graças superabundantes para corresponder ao chamado. E bem poderíamos ter hoje no Calendário Romano uma festa dedicada ao jovem rico, que se tornou pobre para adquirir uma riqueza muito maior: o décimo terceiro Apóstolo!

Entretanto, faltou-lhe reconhecer que, se praticava os Mandamentos, não era por suas próprias forças, mas pela graça divina. E que, portanto, sem o auxílio da graça, não conseguiria desprezar as riquezas e seguir Jesus.

III – Só os pobres de Espírito entrarão no Reino dos Céus

23 “E, olhando Jesus em derredor, disse a Seus discípulos: ‘Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!’. 24 Os discípulos ficaram assombrados com Suas palavras. Mas Jesus replicou: ‘Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas! 25 É mais fácil passar o camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus'”.

Neste último versículo, Nosso Senhor Se serve de um provérbio utilizado pelos judeus para expressar algo extremamente difícil e quase impossível. Recorre propositalmente a essa comparação na aparência exagerada – “é mais fácil passar o camelo pelo buraco de uma agulha…” – para mostrar a gravidade da “desordem própria dessa paixão, consistente em apegar o coração à terra, endurecê-lo no que diz respeito a Deus e ao próximo, torná-lo insensível às coisas do Céu”.12

Para bem analisar essas palavras de Jesus, é preciso começar por evitar a interpretação errada, segundo a qual todo rico estaria condenado e todo pobre, ao contrário, estaria no caminho certo para a salvação. Pois o Mestre não se refere aqui à riqueza material, mas sim ao desvio que leva o homem a depositar sua confiança nos bens terrenos, antepondo-os aos bens superiores.

Sobre este particular, esclarece Fillion: “Não se trata aqui dos ricos enquanto tais, pois a posse dos bens temporais não é, de si, um estado de pecado nem causa de condenação, embora ofereça sérios perigos. Jesus não exclui de Seu Reino senão aqueles ricos que se apegam às suas riquezas e nelas põem – digamos assim – sua finalidade e todo o seu afeto”.13

Como valer-se da riqueza para alcançar a vida eterna

A finalidade última do homem está no Céu. O dinheiro e as riquezas podem ser apenas meios – efêmeros, instáveis e dispensáveis – para alcançar esse supremo fim. Assim, é legítimo acumular bens e deles usufruir, desde que sejam adquiridos de forma lícita e seu uso esteja subordinado à glória de Deus.

Homens e mulheres houve na História que
 possuíram muitos bens e agora gozam
a bem-aventurançaeterna “São Luís,
Rei de França” – Igrejade Santo
Eustáquio, Paris

Nesta linha se insere o comentário feito por São Clemente de Alexandria a esta passagem do Evangelho: “A parábola ensina aos ricos que não devem descuidar-se de sua salvação eterna, como se de antemão dela se desesperassem, não que seja preciso jogar ao mar a riqueza, nem condená-la como insidiosa e inimiga da vida eterna. O que importa é saber qual a maneira de valer-se dela para possuir a vida eterna”.14

Com efeito, quantos reis, príncipes ou simples pessoas abastadas que, administrando o que tinham com inteiro desprendimento, encontramse hoje no Céu como atesta o catálogo dos santos?

Por outro lado, quantos pobres há que se recusam a praticar a virtude! Bem fariam estes em ouvir a conclamação de São Cesário de Arles: “Ricos e pobres, escutai o que diz Cristo. Falo ao povo de Deus. Em vossa maioria, sois pobres ou deveis aprender a sê-lo. No entanto, escutai, pois podemos inclusive nos vangloriarmos de ser pobres; tende cuidado com a soberba, não aconteça que os ricos humildes vos superem; acautelai-vos contra a impiedade, não aconteça que os ricos piedosos vos deixem para trás”.15

O problema não está, portanto, na quantidade de bens materiais possuídos por alguém, mas no uso que deles se faz. Para poder entrar no Reino dos Céus, é preciso não ter apego algum a eles. A pobreza de espírito consiste em nos compenetrarmos que somos criaturas contingentes, que dependem de Deus. Pode-se lutar para se ter recursos, mas com vistas a espalhar o Reino de Deus, e fazer com que Ele reine de fato em todos os corações.

Por nosso simples esforço, jamais conquistaremos o Céu

26 “Eles ainda mais se admiravam, dizendo a si próprios: ‘Quem pode então salvar- se?’. 27 Olhando Jesus para eles, disse: ‘Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível'”.

Não é de estranhar o espanto dos discípulos perante a força da comparação usada por Nosso Senhor. Mas essa mesma perplexidade os leva a considerar melhor a própria contingência e a fixar no espírito o duplo ensinamento do Divino Mestre: pelos seus simples esforços, o homem jamais conseguirá conquistar o Céu; mas aquilo que para o homem é impossível, não o é para Deus.

Deus é onipotente, ama-nos desde toda a eternidade e está desejoso de abrir-nos as portas Do Céu. Para nele entrar, é preciso apenas que sejamos humildes e reconheçamos nossas misérias, pedindo o auxílio divino, sem desanimar.

A salvação, como a própria vida, é uma dádiva de Deus. É Sua graça que nos dá forças para praticar os Mandamentos e nos torna dignos de entrar no Seu Reino. Não façamos, pois, como o moço rico, mas confiemos humildemente na Sua bondade, como ensina São Paulo na segunda leitura deste domingo: “Aproximemo-nos confiadamente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno” (Hb 4, 16).

Ainda sobre estes dois versículos, convém notar, com Maldonado, que a pergunta “quem pode então salvar-se?”, os Apóstolos a fizeram “a si próprios”, isto é, somente eles puderam ouvi-la. Cristo, entretanto, olhou para eles e deu-lhes a resposta, mostrando assim que “lia seus pensamentos e ouvia suas conversas, por mais reservadas que fossem”.16

O cêntuplo já neste mundo

28 “Pedro começou a dizer-Lhe: ‘Eis que deixamos tudo e Te seguimos’. 29 Respondeu- lhe Jesus: ‘Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de Mim e por causa do Evangelho 30 que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna'”.

Talvez pelo fato de se sentirem apanhados, São Pedro, impulsivo porta-voz de todas as perplexidades dos Apóstolos, formula uma frase que, no dizer de Lagrange, “resume todo o episódio precedente, do ponto de vista dos discípulos”.17

A que distância se encontra nossa alma da
atitude do moçorico? Se Cristo nos convidasse
hoje a segui-Lo, como Lheresponderíamos?
 “Sagrado Coração de Jesus”Igreja de Nossa
Senhora de Loreto, Lisboa

Segundo Maldonado – o qual segue a opinião de Orígenes, São Jerônimo e São João Crisóstomo – quis Pedro, com sua afirmação, lembrar a Cristo o fato de terem os Apóstolos já cumprido anteriormente aquilo que era agora pedido ao jovem rico.18 No mesmo sentido se pronuncia Lagrange, observando que a afirmação do Príncipe dos Apóstolos foi feita “com uma certa satisfação que parece solicitar uma aprovação”.19

Mas caberia perguntar, com Maldonado: “Por que, então, duvidava? Por que não creu firmemente que também para eles havia um tesouro no Céu?”. Ao que ele próprio responde: “Talvez porque pensassem que Cristo prometia tão grande recompensa àquele jovem por causa das muitas riquezas que este devia abandonar; ora, como os Apóstolos possuíam apenas coisas de pouco valor, esperavam receber algo, sim, mas não se atreviam a esperar tanto; por isso perguntam como e quanto será”.20

No fundo da afirmação de Pedro havia uma desconfiança e uma objeção. Jesus, entretanto, não os repreende. Sendo a Bondade em essência, Ele os trata com carinho e acrescenta, ao prêmio da vida eterna no Céu, uma recompensa ainda aqui na terra.

Comentam certos autores que o Senhor, fazendo essa promessa, quis afirmar que quem por causa dEle deixar os bens desta terra, receberá em troca bens de valor infinito. Ou seja: quem por Ele abandonar aquilo que é “carnal”, receberá em troca o prêmio do bem “espiritual”.

Parece-nos, entretanto, que as palavras do versículo 30 – “já neste século” – tornam claro o caráter terreno dessa recompensa, cuja efetivação concreta na era apostólica é assim assinalada por Fillion: “Nos primórdios da Igreja, quando tão amiúde os neófitos precisavam romper os mais estreitos laços de família para se alistarem no serviço de Cristo, encontravam eles na grande comunidade cristã irmãos e irmãs, pais e mães que lhes suavizavam os padecimentos causados por uma violenta separação e enchiam de consolo seus doloridos corações”.21

Sob uma perspectiva mais atemporal, assinala o padre Didon que o Espírito divino “não só traz a todos aqueles que invisivelmente O recebem o antegozo dos bens celestiais, eternos, infinitos, mas, além disso, exalta ainda a vida deste mundo, aumenta seus recursos, harmoniza as suas energias, transfigura todos os seus atos. Entre os seres eleitos que este Espírito aproxima, formam- se laços mais íntimos, mais profundos, mais doces que entre aqueles que são parentes do mesmo sangue”.22

E o padre Fernández Truyols, referindo-se especificamente às pessoas que correspondem à vocação religiosa e fazem a entrega completa de si mesmas, comenta: “O sacrifício dos bens terrenos terá sua recompensa já nesta vida. E não só em vantagens exclusivamente espirituais, mas também em bens temporais, embora num plano superior ao puramente material. Quem se despoja de tudo para seguir Cristo Jesus receberá da Divina Providência, quiçá com acréscimo e superabundantemente, o quanto necessitar para sua subsistência. Deixa seu pai e sua mãe, e Deus dá-lhe pais e mães que o adotam como um filho muito querido. Donzelas na flor da juventude renunciam à maternidade, e Deus as faz mães não de alguns, mas de inumeráveis filhos, nos quais derramam todas as ternuras de um coração verdadeiramente maternal”.23

IV – Uma pergunta decisiva para nossa vida espiritual

Somos todos “participantes da vocação celestial” (Hb 3, 1). Contudo, enquanto Jesus nos chama a segui- Lo a caminho do Reino de Deus, as nossas tendências desordenadas em consequência do pecado original nos arrastam para aquilo que é inferior.

Exemplo paradigmático dessa dicotomia é o episódio do Evangelho que acabamos de comentar. O jovem rico era bom. Praticava os Mandamentos a ponto de Nosso Senhor o fitar com amor. Quando, porém, o Mestre o convidou a ser um dos Seus discípulos, afastou-se triste e abatido, pois sempre que alguém recusa um convite da graça, é pervadido pela tristeza e pelo remorso. O padre Duquesne descreve com notável clareza essa lamentável situação de alma: “Ninguém renuncia à sua vocação sem uma dor de coração, sem uma secreta tristeza que increpa sua covardia, tristeza que difunde amargura ao longo de todo o curso da vida e aumenta na hora da morte”.24

A liturgia deste domingo nos coloca, assim, diante de uma pergunta decisiva para nossa vida espiritual: a que distância se encontra nossa alma da atitude do moço rico? Se Cristo nos convidasse hoje a segui-Lo, como Lhe responderíamos? Bradaríamos com alegria, como Samuel: “Præsto sum” (I Sm 3, 16) – “Eis-me aqui”? Ou, tomados pela tristeza, recusaríamos o convite de nosso Salvador?

Quando chegar esse chamado – e ele pode vir em hora inesperada -, seremos muito mais capazes de dar resposta afirmativa se nos tivermos preparado previamente. Para isso, é necessário que, em todas as circunstâncias da vida, nosso coração esteja à procura do Divino Mestre, combatendo o apego aos bens terrenos, aumentando sem cessar o fogo do amor a Deus e fazendo a pergunta de São Paulo no caminho de Damasco: “Senhor, que quereis que eu faça?” (At 9, 6).

A isto nos incita o Príncipe dos Apóstolos: “Irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (II Pd 1, 10-11).

1 AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. III q. 24, a. 1, resp. “A predestinação propriamente dita é a eterna pré-ordenação divina com relação às coisas que, pela graça de Deus, devem realizar- se no tempo. Ora, pela graça da união, Deus fez com que, no tempo, o homem fosse Deus e Deus fosse homem. E não se pode afirmar que Deus não tenha pré-ordenado desde a eternidade que Ele faria isso no tempo, porque daí se seguiria que algo de novo poderia acontecer para o entendimento divino. Por isso é preciso afirmar que a união das naturezas na pessoa de Cristo entra na predestinação eterna de Deus”.
2 JOÃO PAULO II. Encíclica Redemptoris Mater, n. 8.
“No mistério de Cristo, Maria está presente já ‘antes da criação do mundo’, como aquela a quem o Pai ‘escolheu’ para Mãe do seu Filho na Encarnação – e, conjuntamente ao Pai, escolheu- a também o Filho, confiando-a eternamente ao Espírito de santidade.
Maria está unida a Cristo, de um modo absolutamente especial e excepcional; e é amada neste ‘Filho muito amado’ desde toda a eternidade, neste Filho consubstancial ao Pai, no qual se concentra toda ‘a magnificência da graça'”.
3 DIDON, OP, Pe. Henri. Jesus Christo. Porto: Chardron, 1895, p. 381.
4 LAGRANGE, OP, Pe. M.J.
Évangile selon Saint Marc.
Paris: Lecoffre, 1929, p. 264.
5 FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo.
Madrid: Rialp, v. 2, p. 429.
6 DUQUESNE. L’Évangile médité. Paris-Lyon: Perisse Frères, 1849, p. 266.
7 SAN EFRÉN DE NISIBE, Comentario al Diatessaron, 15, 210 apud ODEN, Thomas C. e HALL, Cristopher A. La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia – Nuevo Testamento 2 San Marcos. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, p. 199.
8 DUQUESNE. Op. cit., p. 267.
9 FILLION. Op. cit., p. 431.
10 MALDONADO, SJ, Pe. Juan de. Comentarios a los cuatro evangelios – I Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, p. 692.
11 LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 266.
12 DUQUESNE. Op. cit., p. 273.
13 FILLION. Op. cit., p. 431.
14 CLEMENTE DE ALEJANDRÍA.
Quis dives salvetur? c. XXVII.
15 CESÁREO DE ARLES, Sermo 153, 156 apud ODEN e HALL. Op. cit., p. 202.
16 MALDONADO, SJ. Op.
cit., p. 695.
17 LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 271.
18 Cf. MALDONADO, SJ.
Op. cit., p. 695.
19 LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 271.
20 MALDONADO, SJ. Op.
cit., p. 695.
21 FILLION. Op. cit., p. 433.
22 DIDON, OP. Op. cit., p. 385.
23 FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: BAC, 1954, p. 482.
24 DUQUESNE. Op. cit., p. 270-271

(Revista Arautos do Evangelho, Outubro/2009, n. 94, p. 10 à 17)

Monsenhor  João Clá Dias

Ódio contra Cristo e sua Igreja

Evangelho

Naquele tempo, 5 algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: 6 ‘Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído’. 7 Mas eles perguntaram: ‘Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?’. 8 Jesus respondeu: ‘Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não sigais essa gente! 9 Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim’. 10 E Jesus continuou: ‘Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país. 11 Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu. 12 Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome. 13 Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé. 14 Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; 15 porque Eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater. 16 Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. 17 Todos vos odiarão por causa do meu nome. 18 Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. 19 É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!'” (Lc 21, 5-19).

Ao longo de sua bimilenar História, a Igreja caminhou sempre sob o signo da perseguição. Entretanto, a cada investida das forças adversárias, brilha ela com maior esplendor.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

I – O sinal dos verdadeiros discípulos

Conta-se que São Pio X, durante audiência aos membros de um dos colégios eclesiásticos romanos, perguntou aos jovens estudantes:

– Quais são as notas distintivas da verdadeira Igreja de Cristo?

– São quatro, Santo Padre: Una, Santa, Católica e Apostólica – respondeu um deles.

– Não há mais de quatro? – indagou o Papa.

– Ela é também Romana: Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana.

– Exatamente, mas não falta mencionar ainda uma característica das mais evidentes? — insistiu o Pontífice.

Após um instante de silêncio, ele próprio respondeu:

– Ela é também perseguida! Esse é o sinal de sermos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo.

Ódio contra Cristo e sua Igreja

A Igreja é perseguida. De fato, sem essa nota não se entende bem a história da Esposa de Cristo, que já começa sob esse signo na mais tenra infância do seu Divino Fundador. Que mal poderia fazer a Herodes aquele Menino, filho de carpinteiro, nascido numa gruta e deitado numa manjedoura? Nenhum. Mas na ímpia tentativa de tirar-Lhe a vida, o tetrarca não hesitou
em mandar assassinar crianças inocentes.

Ao longo da vida pública de Jesus, o ódio contra Ele não fez senão crescer, e chegou ao paroxismo quando os fariseus tomaram a decisão de matá-Lo e obtiveram de Pilatos a iníqua sentença de condenação. De tal forma detestavam o Divino Mestre, que não toleravam sequer vê-Lo fazer o bem, ou ensinar a doutrina da Salvação.

Nessa mesma inimizade encontra-se a fonte das investidas sofridas pela Igreja após a subida de Nosso Senhor ao Céu. Assim, foi movido por ódio furibundo contra os cristãos que Nero deu início, no ano 64, à sangrenta perseguição que haveria de durar, com intermitências, até 313, quando o Imperador Constantino concedeu liberdade à Igreja, pelo Edito de Milão.1

E ao longo dos séculos subsequentes, a Esposa de Cristo nunca deixou de enfrentar os mais variados ataques – por vezes cruentos – e incessantes oposições, ora abertas, ora solapadas. Mesmo em nossos dias, este ódio contra aqueles que praticam o bem não deixa de se manifestar em seus múltiplos aspectos.

Os maus não suportam os bons

“Se o mundo vos aborrece, sabei que aborreceu primeiro a Mim. Lembrai-vos da palavra que Eu vos disse: ‘O servo não é maior que seu Senhor’. Se Me perseguiram a Mim, também a vós vos perseguirão” (Jo 15, 18.20). Por estas palavras de Jesus, vemos serem a adversidade e a incompreensão inerentes à existência terrena do verdadeiro fiel, pela irreversível incompatibilidade entre a doutrina do mundo e a de Cristo. Pois, desde o tempo dos nossos primeiros pais, há entre a bendita posteridade de Maria Santíssima e a raça da serpente maldita o irreconciliável antagonismo descrito pelo Gênesis: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15).

Os maus não suportam os bons, e para estes, o ódio daqueles indica eleição por parte de Deus, conforme se depreende destas palavras de São Jerônimo a Santo Agostinho: “Sois celebrado por todo o mundo. Os católicos veneram e reconhecem em vós o restaurador da antiga Fé, e – o que é sinal de glória ainda maior – todos os hereges vos detestam e perseguem com o mesmo ódio que a mim, anelando matar-nos com o desejo, já que não podem fazê-lo com as armas”.2 É na fidelidade dos justos diante das perseguições que reluz de modo especial a glória de Deus.

II – Anúncio do fim do mundo

A liturgia escolhida pela Igreja para este penúltimo Domingo do Tempo Comum significa praticamente o término do Ano Litúrgico C, uma vez que antecede à Solenidade de Cristo Rei. A perspectiva do fim do mundo e do Juízo Final é muito acentuada nos textos, e convida-nos a considerar com mais atenção a justiça, contraponto indispensável da bondade e da misericórdia divinas.

“Naquele tempo, 5 algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas”.

Após acerba discussão com os escribas e fariseus, ocorrida justamente no recinto do Templo (cf. Lc 20, 45-47; Mt 23, 13-36; Mc 12, 38-40), dirigia-Se Jesus ao Monte das Oliveiras. No caminho, os discípulos manifestavam seu encanto com a beleza daquela “construção de imensa opulência”, no dizer de Tácito,3 rica em simbologias que elevavam a mente para Deus, como convém a todo edifício religioso.

Ponto de referência máximo do povo judeu, para o Templo se voltavam os corações dos israelitas do mundo inteiro. Extraordinária era sua história, desde o momento em que, erigido por Salomão, uma densa e miraculosa nuvem dele tomara conta: ali ofereciam-se os verdadeiros sacrifícios, eram recebidas insignes graças e os devotos entravam num contato mais intenso com o sobrenatural. Embelezar o Templo era, então, realçar ainda mais o seu significado espiritual.

Entretanto, a julgar pelas palavras ditas a seguir por Nosso Senhor, tudo indica que estavam eles contemplando a Casa de Deus com uma visualização meramente naturalista.

Admiravam o Templo, mas não adoravam Quem o habitava

“Jesus disse: 6 ‘Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído'”.

Os Apóstolos tinham diante de si Alguém que valia muito mais do que o Templo: o Criador, o Redentor, a Sabedoria eterna e encarnada. Ao contemplarem com olhos mundanos aquele prédio, manifestavam-se cegos para Deus, porque detinham-se na admiração da criatura sem se elevar até o Criador; compreendiam o símbolo, mas não o Simbolizado. Esta é a razão da contundente advertência de Nosso Senhor.

Pelas mãos de Maria, fora o Menino Jesus apresentado no Templo. Suas muralhas testemunharam as pregações e os inúmeros milagres de Jesus, mas as pedras vivas que o compunham – os sacerdotes e os fiéis – não aceitaram o Messias: “Ele veio para os seus e os seus não O receberam” (Jo 1, 11). Eis por que caiu sobre tão faustoso edifício a terrível condenação: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”.

E essa dura profecia tardaria menos de quarenta anos em realizar-se do modo mais radical possível. “Permitiu a Divina Providência a destruição de toda a cidade e do Templo para que nenhum daqueles que ainda estavam débeis na fé – admirado por subsistirem ainda os ritos de seus sacrifícios – fosse seduzido por suas diversas cerimônias”, comenta São Beda.4

A ruína de Jerusalém e a parusia

7 “Mas eles perguntaram: ‘Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?'”.

Os Apóstolos nada perguntam sobre a causa dessa destruição, mas sim quando ela ocorreria. Como bons israelitas, de espírito previdente, queriam saber com exatidão o que iria suceder.

Que mal poderia fazer a Herodes aquele Menino, filho de
carpinteiro, nascido numa gruta e deitado
numa manjedoura?

“Matança dos inocentes” – Catedral de Notre Dame, Paris

O arrasamento do edifício sagrado, símbolo da grandeza do povo eleito, parecia-lhes impossível antes do fim dos tempos, pois, “para um judeu, a ruína da cidade e do Templo equivale à ruína do mundo”.5 Não podiam eles conceber que algum dia lhes faltaria aquele Lugar Santo, único no mundo. Esta é a razão de juntarem em suas perguntas dois fatos totalmente distintos: a ruína de Jerusalém e a parusia.6

Como observa São Cirilo, os Apóstolos “não perceberam a força de suas palavras e julgavam que Ele falava da consumação dos séculos”.7 Por isso, Nosso Senhor, “sem deixar de responder à pergunta com clareza suficiente para eles conjecturarem os acontecimentos vaticinados, 8 falará em dois sentidos: um, a destruição do Templo material; outro, o fim do mundo. Na realidade, o desaparecimento dessa grandiosa construção significava o fim de um mundo: a época da antiga Lei cedia lugar à era da Graça.

Ver todos os acontecimentos na perspectiva divina

8 “Jesus respondeu: ‘Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’; e ainda: ‘O tempo está próximo.’ Não sigais essa gente! 9 Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim’. 10 E Jesus continuou: ‘Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país. 11 Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu'”.

Jesus responde aos discípulos com uma linguagem enigmática, sem procurar desfazer o equívoco em que incorriam, nem responder-lhes com exatidão. Prefere deixar num lusco-fusco os aspectos cronológicos da pergunta, com vistas à formação moral e espiritual dos seus ouvintes.

Com efeito, a expectativa do fim do mundo como um evento próximo habituava-os a contemplar os acontecimentos desde a perspectiva divina, e preparava as almas daqueles primeiros cristãos para as perseguições que teriam de enfrentar, prefiguras dos últimos tempos, pelo ódio e crueldade dos perseguidores.

Ora, sempre que os pecados da humanidade passam de certo limite, Deus intervém manifestando sua cólera e castigando os caprichos e egoísmos dos homens.

Com a Encarnação, Deus levara seu amor às criaturas a um ponto inexcogitável pelos homens, e mesmo pelos anjos. Uma extrema bondade caracterizou a vida pública de Jesus, marcada por inúmeras curas e milagres. Porém, Ele não seria Deus se não manifestasse também o esplendor da sua justiça, virtude não menor que a misericórdia. Tem Ele, por assim dizer, duas mãos: a da misericórdia e a da justiça. Com a primeira, perdoa e protege; com a segunda, cobra e castiga. De uma dessas mãos divinas, ninguém escapa.

Para contemplar a Deus na perspectiva verdadeira, sem distorções nem unilateralismos, é preciso amar n’Ele esses dois aspectos. Considerar a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade morrendo na Cruz para nos redimir, é poderoso estímulo para a nossa piedade. Mas não podemos também deixar de admirar sua severidade, ainda quando ela possa vir a nos atingir.

Porque, como ensina Santo Afonso Maria de Ligório, “não merece a misericórdia de Deus quem se serve dela para ofendê-Lo. A misericórdia é para quem teme a Deus, e não para o que dela se serve com o propósito de não temê-Lo. Aquele que ofende a justiça – diz o Abulense – pode recorrer à misericórdia; mas a quem pode recorrer o que ofende a própria misericórdia?”.9

III – Sereis presos e perseguidos

12 “Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome”.

“Nossa Senhora do Apocalipse” – Casa
Rosa Mística, dos Arautos do Evangelho,
São Paulo

Ao anunciar aos Apóstolos as perseguições e sofrimentos que haveriam de enfrentar, Nosso Senhor tinha em vista também instruir os cristãos de todos os tempos, porque inúmeras vezes ao longo da História a proclamação do nome de Jesus Cristo lhes trará como consequência serem injustamente presos, perseguidos ou conduzidos aos tribunais. E isto chegará ao auge nos últimos tempos, pois quanto maior for a decadência moral da humanidade, inelutavelmente mais ódio haverá contra os justos, cuja mera existência já representa muda censura aos maus.

Bem pondera São Gregório Magno: “A última tribulação será precedida de muitas outras, porque devem vir antes muitos males que possam anunciar o mal sem fim”.10

Testemunhas da fé na hora da provação

13 “Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé”.

Errôneo seria pensar que durante as perseguições cabe aos bons ficarem encolhidos e timoratos, incapazes de qualquer ação. Pelo contrário, dão-lhes elas ensejo a testemunharem com coragem a boa doutrina diante daqueles que se desviaram do caminho certo.

Ao afirmar que as portas do inferno não prevalecerão contra a sua Igreja (cf. Mt 16, 18), estabeleceu o Divino Fundador que ela será não apenas invencível, mas sempre triunfante. Assim, por mais que os infernos, não podendo destruí-la, se organizem para sufocá-la, jamais conseguirão impedir sua atuação. E, sejam quais forem as aparências, a Luz de Cristo permanecerá em sua Esposa com todo o seu poder e grandeza, aguardando o momento de manifestar-se de forma intensa, majestosa e irresistível.

Nessas horas de tempestade, suscita a Providência testemunhas da fé que sejam fachos da Luz de Cristo a rasgar a obscuridade da provação. Muitas vezes, inclusive, Deus Se utiliza de instrumentos frágeis, de modo a deixar mais patente sua onipotência: Gedeão, último homem da tribo de Manassés; Judite, piedosa viúva; e os próprios Apóstolos, simples pescadores. E, se percorrermos as grandes aparições da Virgem Maria, desde Guadalupe até Fátima, a quem vemos como receptores da mensagem, senão pessoas de escassa cultura e predicados?

Quanto aos acontecimentos do fim do mundo, serão justamente a firmeza na fé e a força impetratória dos fiéis, perante o ódio insaciável dos sequazes do anticristo, que atrairão a intervenção divina, desencadeando o castigo final.

Conselho divino confirmado pela História

14 “Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; 15 porque Eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater”.

Com esta surpreendente afirmação, parece Nosso Senhor convidar seus discípulos à negligência, ao invés de incentivá-los a se prevenirem perante a perspectiva da perseguição. Ora, esclarece o Cardeal Gomá, Jesus “não lhes manda que não procurem precaver-se nos transes difíceis pelos quais passarão, mas sim que não se aflijam por isso, pois nos momentos de crises mais agudas poderão contar com a inspiração especial de Deus”.11

De fato, na luta de todos os dias, vale o princípio atribuído a Santo Inácio: “Rezai como se tudo dependesse de Deus e trabalhai como se tudo dependesse de vós”.12 Mas nesta passagem do Evangelho refere-Se o Mestre aos momentos de extrema aflição em que tudo parece perdido. Nessas horas, comenta São Gregório, “é como se o Senhor dissesse a seus discípulos: ‘Não vos atemorizeis. Vós ireis ao combate, mas Eu é que combaterei; vós pronunciareis palavras, mas quem falará sou Eu'”.13

E a História comprova com abundância a esplêndida realização dessa profecia de Nosso Senhor, nos julgamentos iníquos promovidos contra os filhos da luz. Santa Joana d’Arc, por exemplo, era uma camponesa sem estudos; suas respostas, entretanto, confundiram o tribunal que a julgava, pela extraordinária profundidade teológica.

Deserção e traição nas próprias fileiras

16 “Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. 17 Todos vos odiarão por causa do meu nome”.

“Santa Joana d’Arc” –
Catedral de Béziers (França)

Até no seio das próprias famílias haverá divisão, multiplicando o sofrimento daqueles que serão entregues por “pais, irmãos, parentes e amigos”. Pois, como ensina São Gregório, “os mais cruéis tormentos para nós são os causados pelas pessoas mais queridas, porque, além da dor corporal, sentimos o carinho perdido”.14

Já o Cardeal Gomá interpreta este versículo num sentido simbólico, mais abrangente: “Aos vexames que deverão sofrer da parte dos inimigos, se acrescentará um mal mais grave: a deserção e a traição nas próprias fileiras”.15 Com efeito, quantas vezes não foram hereges ou apóstatas os mais acirrados adversários da Igreja?

Deus é o principal Ator da História

18 “Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça”.

Julgamos, por vezes, serem raríssimas as intervenções de Deus nos acontecimentos terrenos. Como se Ele, após criar o universo, deixasse os fatos correrem por si, procedendo de forma semelhante a alguém que planta uma árvore e se despreocupa totalmente do seu crescimento. Nada mais contrário à realidade. Deus não só age na História, mas, sobretudo, é seu principal Ator. Tudo está em suas santíssimas mãos, nada foge ao seu governo: “Em Deus vivemos, nos movemos, e somos” (At 17, 28).

Às vezes, a ação da Divina Providência nos fatos concretos é visível aos olhos de todos, por ser desígnio seu torná-la patente. Porém, na maior parte das ocasiões, Ela opera de forma oculta ou discreta, deixando por conta do nosso entendimento e da nossa fé discernir o cunho de sua atuação.

O Criador tem tudo contado, pesado e medido. E, ao agir sobre os acontecimentos, tem sempre em vista, junto com a própria glória, a salvação dos que são seus. Por isso, afirma São Paulo: “Tudo quanto acontece, concorre para benefício dos justos” (Rm 8, 28).

Cada um dos nossos atos, gestos ou atitudes serão consignados no Livro da Vida. Nenhum ato de virtude ficará sem recompensa, conforme afirma São Beda: “Não cairá um só fio de cabelo da cabeça dos discípulos do Senhor, porque não somente as grandes ações e as palavras dos santos, mas também o menor de seus pensamentos será dignamente premiado”.16

Esperança na vida verdadeira

19 “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”.

Todos nós, como os Apóstolos, estamos sujeitos a passar por situações difíceis em razão de nossa fidelidade a Cristo. Como devemos nos comportar diante delas?

Antes de tudo, precisamos crer firmemente na onipotência de Nosso Senhor e ter bem presente seu amor por cada um de nós, conforme nos exorta Santo Agostinho: “Essa é a Fé cristã, católica e apostólica. Confiai em Cristo que diz: ‘não cairá sequer um fio de vossos cabelos’, e, uma vez eliminada a incredulidade, considerai o quanto valeis. Quem de nós pode ser desprezado por nosso Redentor, se nem sequer um fio de cabelo o será? Ou: como duvidaremos de que dará a vida inteira à nossa carne e à nossa alma Aquele que, por amor a nós, recebeu alma e carne na qual morreu, e a recobrou para que desaparecesse o temor de morrer?”.17

Mas também não podemos duvidar de que Jesus Se encarnou para nos fazer partícipes de sua ressurreição: “Se Cristo não ressuscitou, vossa fé é vã” (I Cor 15, 17), proclama São Paulo.

Uma vez compenetrados de estarmos de passagem nesta Terra, a caminho da eternidade, todos os males que possamos sofrer tomam outra dimensão. “Quem sabe que é um peregrino neste mundo, independentemente do local onde se encontre corporalmente; quem sabe que tem uma pátria eterna no Céu; quem tem certeza de que ali se encontra a região da vida feliz, a qual aqui é lícito desejar, mas não é possível ter, e arde nesse desejo tão bom, santo e casto – esse vive aqui pacientemente”.18

É permanecendo firmes na Fé que ganharemos a verdadeira vida; é só na perspectiva da glória eterna que teremos forças para perseverar na hora das provações. E isto não depende tanto do nosso esforço quanto da graça divina, que devemos pedir sem cessar.

IV – Proclamar a beleza triunfante da Igreja

Dois significativos episódios históricos, entre tantos outros, podem ilustrar o ensinamento da liturgia deste domingo.

Os momentos de perseguição nos convidam a depositar
uma fé inquebrantável em Cristo e em sua Igreja

“Jesus triunfante” – Cemitério Campo di Verano, Roma

O filósofo iluminista François-Marie Arouet, mais conhecido pelo pseudônimo de Voltaire, foi um dos mais festejados ímpios de todos os tempos. Seu ódio contra a Igreja o levou a afirmar: “Estou cansado de ouvir dizer que bastaram doze homens para implantar o Cristianismo no mundo, e quero provar que basta um para destruí-lo”.19 Mas, o atrevido ateu morreu e a ridícula ameaça caiu no vazio.

Não menos arrogante com a Esposa de Cristo foi Napoleão Bonaparte. Após ser excomungado pelo Papa Pio VII, teve a petulância de perguntar sarcasticamente ao legado papal, Cardeal Caprara, se por causa disso iriam cair as armas das mãos dos seus soldados. Ora, segundo narram testemunhas oculares, entre as quais o Conde de Ségur, foi o que aconteceu durante a campanha da Rússia: “As armas dos soldados pareciam ser de um peso insuportável para seus braços intumescidos; em suas frequentes quedas, escapavam-lhes das mãos, quebravam-se ou perdiam-se na neve”.20

Meses depois, Bonaparte viu-se obrigado a assinar o decreto de sua própria destituição no palácio de Fontainebleau, onde mantivera cativo o Vigário de Cristo, e partiu para o exílio. Pio VII, entretanto, a quem ele chamara despectivamente de “velho”, ainda haveria de reinar por quase uma década, sobrevivendo por dois anos ao prisioneiro da Ilha de Santa Helena. E, assim, poderíamos multiplicar os exemplos mostrando “ser uma característica da Igreja vencer quando atacada, ser melhor compreendida quando contestada e ganhar terreno quando abandonada”, segundo ensina Santo Hilário de Poitiers.21 Ao que o padre Monsabré acrescenta: “muitas vezes, no curso da Era Cristã, pôde-se ver o Corpo Místico do Filho de Deus a ponto de perecer, muitas vezes pôde-se vê-lo recobrar vida e avançar com passo resoluto rumo aos dias da eternidade”.22

Os períodos de perseguição nos convidam a depositar uma fé inquebrantável em Cristo e em sua Igreja, mas também a amá-Los de um modo todo especial. “Em tempo de grandes prevaricações”, afirma o Cardeal Gomá, “até os bons se tornam tíbios. Contudo, em meio às defecções e tibiezas, perseverarão os fortes, os que guardarem a fé e os bons costumes cristãos. Estes se salvarão: “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Mt 24, 13). Sendo constantes, obtereis a salvação”.23

Ao nos situar diante de uma grandiosa perspectiva escatológica, o Evangelho deste domingo nos incita a proclamar a beleza triunfante da Santa Igreja, na confiança plena de que quem permanecer filialmente no seu seio obterá como prêmio o próprio Deus!

Notas:

1 “Osório, que utilizou fontes hoje perdidas, escreveu: ‘Nero condenou os cristãos a diversas formas de morte, e os perseguiu não só em Roma, mas também em todas as províncias, e procurou suprimir o nome cristão’ […] Refere Lactâncio que ‘a causa da perseguição foi o ódio de Nero contra os cristãos'”. (WEISS, Juan Bautista. Historia Universal. Barcelona: La Educación, 1927, v.III, p.708-709).
2 SANCTUS HIERONYMUS. Epistola CXLI: PL 33, 891.
3 Cf. GOMÁ Y TOMAS, Isidro El Evangelio explicado. Barcelona: Casulleras, 1930, v.IV, p.109.
4 SAN BEDA, apud SANTO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea.
5 GOMÁ Y TOMÁS, op. Cit., p.110.
6 Isto se vê com maior clareza no Evangelho de São Mateus: “Dize-nos, quando será isso? Qual será o sinal de tua vinda e do fim do mundo?” (Mt 24, 3).
7 SAN CIRILO, apud SANTO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea.
8 GOMÁ Y TOMAS, op.cit., p.114.
9 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Preparação para a morte. Cons. XVII, ponto I.
10 SAN GREGORIO MAGNO, apud SANTO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea.
11 GOMÁ Y TOMÁS, op. Cit., p.112.
12 Catecismo da Igreja Católica, n.2834.
13 SAN GREGORIO MAGNO, apud SANTO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea.
14 Idem, ibidem.
15 GOMÁ Y TOMÁS, op. Cit., p.112.
16 SAN BEDA, apud SANTO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea.
17 SAN AGUSTÍN, Sermón 214, 12 apud ODEN, Thomas C. E JUST Jr., Arthur A. La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia – Nuevo Testamento, San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, v.III, p.429.
18 SANCTUS AUGUSTINUS. Sermo 359A. 2.
19 CONDORCET. Vie de Voltaire in OEuvres completes de Voltaire. Paris: Th. Desoer, 1817, t.I, p.55.
20 SÉGUR, Conde de, apud HENRION, Barón. Historia general de la Iglesia. 2.ed. Madrid: Ancos, 1854, t.VIII, p.153
21 SANTO HILÁRIO DE POITIERS, apud BERINGER, R. Repertorio universal del predicador. La Iglesia y el Papado. Barcelona: Litúrgica Española, 1933, v.XVIII, p.241.
22 MONSABRÉ, OP, Jacques–Marie-Louis. Retraites pascales. I- La tentation. I- Recherche de Jésus-Christ. Paris: Lethielleux, 1877-1888, p.319.
23 GOMÁ Y TOMÁS, op. Cit., p.113.

(Revista Arautos do Evangelho, Nov/2010, n. 107, p. 8 à 15)

Pe. João Clá Dias

Nossa Senhora da Assunção

Em preparação à festa de sua padroeira, a paróquia de Nossa Senhora da Assunção iniciou no Domingo último – 24 de Julho – uma procissão com a imagem da mesma invocação que percorrerá todos os núcleos, e que culminará na solene celebração no dia 15 de Agosto.

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Esta procissão traçou o seu primeiro trajecto rumo a comunidade do Bairro de Mastrongo onde foi acolhida entre aplausos e cânticos de júbilo justo na hora do ofertório da Missa presidida pelo Pe.Salgueiro.

Tomaram parte nesta devota passeata as Irmãs Diocesanas, as legionárias de Maria que com todo o entusiasmo portavam o andar da Santa Mãe de Deus, os Arautos do Evangelho e os demais paroquianos. Clipboard01

Esta atividade é desenvolvida como um modo a dar graças a sua matrona por tudo quanto Ela tem feito por seus filhos, por isso, com 20 dias de antecedência já começam a se ouvir os cânticos em seu louvor.

 

 

 

 

 

 

 

Dirson castigo Machaieie

Apostolado do Oratório: em Moçambique

APOSTOLADO DO ORATÓRIO

 

MARIA, RAINHA DO TERCEIRO MILÊNIO

 

LANÇADO SOLENEMENTE EM MOÇAMBIQUE

 

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            Na festa de Nossa Senhora do Carmo, o Frei Carmelita Juracy Barbosa, O.C .com a colaboração dos Arautos do Evangelho, fez o lançamento oficial do Apostolado do Oratório, na Paróquia da Sagrada Família em Matola, Moçambique.

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            A cerimônia teve início após a Missa, com a entrada solene do Oratório do Imaculado Coração de Maria, portado pelos Arautos, abençoado em 2001 pelo Papa Beato João Paulo II.

            O Pároco, após abençoar o Oratório, procedeu à “Cerimônia do Envio” que consistiu na bênção e aspersão com água benta das 22 paroquianas que assumiram o encargo de participar do “mandato” confiado pelo Papa aos Arautos do Evangelho, quando lhes disse: “Ide pelo mundo inteiro levando o Evangelho, por intercessão do Coração Imaculado de Maria”.

            Essas 22 “enviadas” pelo Pároco, sob a supervisão dos Arautos, vão levar o Oratório do Imaculado Coração de Maria a 30 Núcleos – Grupos de fiéis das Comunidades Paroquiais – que se reúnem semanalmente para rezar e partilhar a palavra de Deus.

            Frei Juracy, como bom Carmelita, deseja incrementar a devoção a Maria em toda a Paróquia através da reza do Terço. Para isto, viu no “envio” do Oratório um instrumento providencial.

            O primeiro Núcleo que a acolheu o Oratório, no próprio dia do “envio”, reuniu cerca de 60 fiéis para recebê-lo. O que foi feito com expressivos e devotos cânticos, como por exemplo: “Kanimanbo, kanimanbo, kanimambo Mamana Maria”; que se traduz por “obrigado… Mamãe Maria!”. A graça divina se fez tão sensível nesta ocasião que alguém chegou a comentar que parecia estar vivendo aquelas cenas narradas nos Atos dos Apóstolos quando o Espírito Santo se fazia presente.

Dom João Carlos, novo bispo auxiliar de Maputo

Maputo (Segunda-feira, 11-07-2011, Gaudium Press) Milhares de fiéis de Maputo, capital de Moçambique, na África, acompanharam na manhã deste domingo uma emocionante cerimônia de consagração episcopal na arquidiocese. O arcebispo local, Dom Francisco Chimoio, sagrou Dom João Carlos Nunes na manhã do domingo último, bispo auxiliar de Maputo. A cerimônia encheu a Catedral da Sé de Maputo.

A cerimônia, além do bispomais, pode ser considerada histórica para o clero da Arquidiocese. Das milhares de pessoas que lhe assistiram, aproximadamente 150 portavam camisetas confeccionadas especialmente para a ocasião, estampadas com o rosto do recém-sagrado, e aclamando o bispo entre cânticos e dança.

A manifestação foi tão forte que pareceu ser o próprio público a consagrá-lo. Isto porque, no momento em que o arcebispo Dom Francisco anunciou solenemente o propósito da cerimônia, a multidão irrompeu em um longo e forte aplauso que levou Dom João Carlos às lágrimas.

O evento teve ampla repercussão. Estavam presentes quase todos os bispos do clero, um prelado da Suazilândia, sacerdotes de distintas ordens e diocesanos, religiosos e religiosas, várias autoridades civis – como o ex-presidente da República – e uma delegação de fiéis sul-africana, entre outros, além dos familiares do próprio consagrando.

Ao discursar, Dom João novamente não conseguiu conter a emoção, especialmente diante da inesperada acolhida dos fiéis, e ressaltou que “granjeou a plenitude do sacerdócio sem sua expressa concorrência, mas sim escolhido por Deus para ocupar essa cátedra a serviço do povo fiel de Deus”.

Dom João Carlos tem se dedicado mesmo a esse serviço. Entre outros feitos, compôs diversas músicas sacra em louvor à Nossa Senhora, foi diretor da local Rádio Maria e, por fim, chanceler da Cúria para os assuntos da diocese.

Uma história com sabor de lenda

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Dizia que na ilha de Creta havia um quadro da Santíssima Virgem que o povo venerava em razão de inúmeros milagres que aconteciam. Um dia, um rico negociante roubou o quadro e o levou até Roma na esperança de fazer um bom dinheiro.
Quando o navio atravessava o mar Mediterrâneo, uma grande tempestade ameaçava pôr o navio a pique. Sem saber que o quadro da Virgem estava com eles, os marinheiros começaram a rezar pedindo a proteção de Maria e foram prontamente atendidos: a tempestade cessou.
    Após o falecimento do ambicioso comerciante que não conseguiu vender o quadro da Virgem Maria, Ela aparece a uma menina, filha da senhora que guardava a tela, pedindo que a pintura fosse colocada em uma Igreja.
    O título de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, foi a própria Virgem que o usou, quando falou à menina a quem apareceu. Talvez fosse esse título com que era venerada em Creta ou seria a inovação que Ela gostaria fosse usada daquele dia até hoje. Como a ilha de Creta foi dominada muitos séculos pelos muçulmanos, que destruíram todos os documentos cristãos, pouco se sabe da origem do quadro e da Igreja onde era cultuado. Alguns historiadores dizem que deve ser uma das cópias do quadro da Virgem pintado por São Lucas.
    É uma pintura em madeira, estilo bizantino, feita por um pintor grego, pois são letras gregas que acompanham o quadro em suas inscrições. (N. D. Ou de algum outro artista que pintou o quadro em caracteres gregos). Com arte e piedade, com elegância e simplicidade, representa a Virgem Maria a meio corpo. Uma túnica vermelha reveste o seu corpo e um manto preto encobre sua cabeça. Os arcanjos São Miguel e São Gabriel mostram os instrumentos da Paixão do Senhor. O Menino Jesus, nos braços de Maria, olha assustado para esses instrumentos. Suas mãozinhas apertam nervosas a mão de Maria, como a pedir-lhe socorro, sua sandalhinha do pé esquerdo está desamarrada. Maria abraça com ternura a Jesus que parece estar seguro. Ambos têm uma auréola ao redor da cabeça e usam uma coroa aberta como a de um duque. Ao lado, mais ao alto,estão umas letras de alfabeto grego.
    O quadro foi levado à capela de São Mateus, em Roma no ano de 1499, onde permaneceu recebendo a veneração popular por mais três séculos. Um criminoso incêndio destruiu tudo. No século XIV, o Papa Pio IX (sic), chamou os padres Redentoristas para ocuparem o mesmo convento e capela que foram destruídos no templo dos Agostinianos.
    Um dos redentoristas encontrou documentos que falavam do quadro. Após muita procura o quadro foi achado através de uma revelação divina. O milagroso quadro foi introduzido triunfalmente em seu atual santuário, em 1866. O Papa, ao solicitar o cuidado dos redentoristas, para com o quadro e o santuário disse: Fazei com que todo mundo conheça o Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. É um dos mais populares por ser muito expressivo, pois qual é a criatura humana que não passa por momentos de angústia e aflições, necessitando um socorro divino, seguro e perpétuo?
    MONS. JOSÉ LÉLIO MENDES FERREIRA, Maria na América, Bragança Paulista, Outubro de 1992, (pgs. 77-78)
 

Um jovem país: Moçambique

Arautos do Evangelho_MoçambiqueComo é bom sentir-se protegido pelos próprios pais. Todos certamente sabem-no por experiência. A criança  vê nos seus pais o consolo quando está triste, a segurança no perigo, o auxílio nas dificuldades e até a recompensa nos esforços. São eles que  limpam as suas lágrimas e guiam-na pela mão.

Entretanto, quão grande não será a alegria de uma mãe que vê o seu filho dando os primeiros passos apoiado em seus próprios pés.
Do mesmo modo, é uma grande alegria quando uma nação deixou a fase infantil e ela mesma é capaz de guiar a sua própria marcha rumo a um futuro feito de progressos, revelando assim a maturidade de seus pensamentos e a resolução no seu caminhar.
Por ocasião do 36º.Independência_Maputo_Arautos do Evangelho 

Aniversário da independência do país, nos diversos recantos do jovem Moçambique, esta data foi solenemente celebrada no dia 25 de junho. Em Matutuine, por exemplo, a cerimônia começou com uma pequena passeata até a praça (cópia daquela em que jazem os heróis moçambicanos) no centro da Vila, onde todos, a uma só voz, exclamavam o “Viva a independência” e ao som da Banda dos Arautos do Evangelho, entoaram a plenos pulmões o Hino Nacional.Maputo_Arautos do Evangelho

A deposição de flores feita pelo Administrador de Matutuine aos pés daqueles que combateram em prol do bem estar dos seus concidadãos, testemunhou a gratidão de todos a esses heróis e serviu de penhor de levar avante o país até a sua plena realização.

As demais personalidades ali presentes, incluindo dois sacerdotes encarregados da direção espiritual dos fiéis católicos daquela vila, imitaram o gesto depositando  uma rosa no monumento. discursos, apresentações culturais, feiras, etc., deram seqüência a programação daquele dia cuja memória está cunhada a ferro em brasa nos corações moçambicanos.

Dirson Castigo Machaieie

A Festa de Corpus Christi em Maputo

Arautos em Moçambique

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tudo o que Deus faz é perfeito; ainda que, a primeira vista, diante dos olhos semi-cegos dos homens, aparente ser insensato.

 

Arautos do Evangelho em África

 Quando Nosso Senhor, Jesus Cristo, anunciou que somente quem comece do seu Corpo e bebesse do seu Sangue, é quem herdaria o trono principesco da pátria Celeste, muitas pessoas se distanciaram do Divino Mestre, até mesmo entre aqueles que o seguiam de Perto (São João; Capítulo 6, Versículos 48-66).  Quem de nós se estivesse naquela época – sem uma especial graça de Deus – não tomaria a mesma atitude? Entretanto, depois da Instituição da Festa do Corpus Christi, no dia 11 de Agosto 1264, pelo Papa Urbano IV, através da bula Transiturus de Hoc Mundo, e a oficialização das procissões eucarísticas que o Concílio de Trento fez, em meados do século XVI, – dentro dos desígnios de Deus – as coisas tomaram outro aspecto.Arautos em Moçambique

 

Anualmente o Povo de Deus se reúne à volta do tesouro mais precioso herdado de Cristo, o Sacramento da sua própria presença, e O louva, canta e leva em procissão pelas ruas da Cidade, como atesta o ocorrido no dia 26 de Junho, domingo passado, na Arquidiocese de Maputo: depois das comemorações a guisa de Solenidade
de Corpo de Deus em todas Paróquias, comunidades, Núcleos de Orações e  até mesmo em capelas mais privadas de religiosos e de famílias, os fiéis da Arquidiocese de Maputo, distintamente caracterizados de uniformes diversos para identificar suas proveniências e ministérios, acorreram para Paróquia de Nossa Senhora das Vitórias, a fim de unir-se ao Clero local constituído de Cardeal, Bispos, Monsenhores, Presbíteros, Diáconos e religiosos de vida consagrada para iniciar-se a soleníssima Procissão que, percorrendo as largas avenidas da Cidade de Maputo,  culminou na Sé Catedral.

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 Qualquer pessoa, por menos religiosa que fosse, ao contemplar aquela procissão encabeçada de Acólitos  portando a Cruz processional, revestidos de alvas túnicas,  seguidos de Sua Excelência Dom Francisco Chimoio, portando uma enorme custódia com O Santíssimo Sacramento sob um Pálio que era sustentado por seis pessoas, cortejado pelo resto do Clero, Ministros  da Eucaristia e milhares de fiéis entoando cânticos em harmonia com a Banda musical dos Arautos do Evangelho de Moçambique, sem dúvida ficaria tocada no mais fundo de sua alma. O itinerário da procissão comportou paragens, nas quais, o presidente da Celebração, proferia palavras de acção de graças, louvores e com o público em geral adoravam a Jesus sacramentado.Moçambique_Maputo_Arautos do Evangelho

 

Quando se chegou na Catedral, todos se postaram genuflexos, em atitude de profunda Adoração, enquanto os acólitos incensavam a Jesus Hóstia. A atmosfera era eminentemente sobrenatural e a grande piedade daquela multidão de fiéis certamente subia ao Deus três vezes santo como um incenso de agradável odor.  Sem dúvida, foi o dia muito significativo para todos.

As carpideiras e a internet

Muito provavelmente as novas gerações nunca ouviram o termo carpideira. Se arriscarem um palpite, dirão que tem relação com roça, com jardim, com alguém que executa a tarefa de carpir o mato. Na verdade, a palavra expressa uma profissão sui generis: chorar pelos mortos. Sim, é uma profissão milenar, cuja presença até a Bíblia registra. Sendo tradição tão antiga, e de origem oriental, provavelmente, não é de espantar que ela ainda exista na querida Índia.577_M_fee7c9f27.jpg

Quando se vive em outro país, com cultura tão diferente da ocidental, tudo é curioso e marca a memória. Foi o caso do enterro assistido em Divar, Goa. O falecido era um ilustre pai de família, já próximo dos 70 anos, com os filhos criados e bem instalados, excetuado o mais jovem, cujo matrimônio estava marcado para exatamente cinco dias após o falecimento do pai. Pode-se imaginar o trauma. No entanto, todas as formalidades que fazem parte dos ritos funerários foram minuciosamente seguidas.

O falecido pertencia a uma família descendente dos portugueses, já miscigenada com o elemento nativo. Por este motivo, sua reputação era elevada; pertencia à casta dos Brâmanes. Morava em um dos lugares mais bonitos de Goa: a ilha de Divar. Este aprazibilíssimo local bem pode ser descrito como uma pequena reprodução de uma cidadezinha qualquer de Portugal. O estilo das casas, as igrejas, dentro delas os santos, os altares, a arquitetura barroca colonial, tudo lembra o pitoresco país luso.

Em uma larga avenida de terra, ladeada por casarões antigos, situava-se a casa do falecido. Certamente, em tempos idos, a casa fora bela e vistosa. Agora estava com as cores desbotadas, o madeiramento do telhado carunchado, e até as talvez seculares mangueiras do quintal mostravam as enormes raízes expostas, como que atestando os múltiplos esforços que o vegetal tinha feito ao longo de tantos anos.

Na sala estava montado o féretro: as paredes e janelas cobertas por tecidos negros, um burburinho respeitoso e a família consternada. Até aqui nada de excepcional. Mas quando o visitante, conduzido por alguém da família, entrava na sala anexa, surpreendia-se com uma mesa fartamente servida. Todos os melhores pratos típicos goeses ali se encontravam. O saboros “calde” verde, o bolo “semrival”, a bebinca, o chouriço goês, chamuças, vistosos chapatis e apas, enfim, tudo o que dava água na boca do convidado e peso na consciência, por estar se deleitando com a vista e o olfato, e, posteriormente, com o paladar, enquanto se velava um defunto na sala.

Mas, como ali é o costume, os visitantes se consolavam da morte alimentando-se bem. É sinal de alta categoria do morto os pratos numerosos e variados, e o visitante deve sentir-se bem recebido até pelo finado.

Ao se aproximar a hora do enterro, à medida que a casa se enchia, iam chegando alguns senhores com uniformes garbosos, carregando instrumentos musicais. Teria o morto pertencido a alguma corporação musical que agora vinha lhe prestar homenagem? Ou seria ele amante da música a ponto de a família querer que se executassem algumas últimas melodias em sua presença? Nada disso. É outro costume antigo conservado em Goa. Todos os enterros, pelo menos de pessoas de boa casta, são acompanhados por banda de música, que já possuem um repertório próprio para essa ocasião: vetustas melodias herdadas dos ancestrais portugueses, melancólicas e arrastadas. E uniformes formais em vermelho e dourado. Assim, para aquele grupo de pessoas, o defunto quase se eleva à categoria de chefe de estado.

O mais extraordinário, porém, foi, ao sair o cortejo fúnebre, a presença de dez a quinze senhoras, vestidas de negro, com os rostos velados, que choravam sentidamente. Seriam ciganas? Não podia ser, porque entre elas se encontrava uma conhecida, embora não fosse nem parente, nem amiga da família. E por quê tanto choro? Um pouco exagerado, já que a frágil saúde do defunto pai de família fazia prever um passamento súbito. Eram as famosas carpideiras, personagens de romances e de contos, mas nunca conhecidas na realidade. Choravam às torrentes, e, talvez pela familiaridade que com a presença delas tinham os participantes, não chegavam a contagiar, mas acrescentavam dramaticidade ao ato. Andavam à frente do féretro, abrindo caminho para a dor e lamentando em altos soluços a visita da morte. Era esse seu papel.

Todo o restante da cerimônia passou-se mais ou menos como no ocidente. Missa de corpo presente, cortejo até o cemitério, discurso à beira da sepultura, últimas despedidas, tudo com o fundo musical da banda e das carpideiras.

1748_M_fca2906c9.jpgEsse episódio ficaria esquecido na memória se não fosse o contraste que suscitou a notícia há pouco veiculada pela Internet de que, nos Estados Unidos, criou-se uma empresa especializada em enterros personalizados. O moribundo, ou o simplesmente enfermo, pode optar pelo tipo de velório e enterro de sua preferência. Pode escolher o tema do velório segundo seu próprio gosto: romântico, roqueiro, esportista, intelectual, formal, light, teens, etc. Também pode escolher o texto do convite e o cardápio do que será servido na ocasião, com ofertas desde champagne até o simples cafezinho. A presença do cadáver na “festa” é opcional. E, o mais surpreendente: uma vez montada a “festa”, ele tem a possibilidade de assistir a ela antecipadamente, é claro, em 3D. A intenção do inovador empresário é “desdramatizar” a morte.

O contraste entre este novo ritual fúnebre e o antigo, presenciado em Goa, é profundo, embora possa parecer apenas uma adequação às novas tecnologias. Sem considerar o mal que faz à alma de quem se despede dessa vida, o fato de preocupar-se com coisas do mundo – quando deveria meditar sobre o valor moral de seus atos e o seu destino eterno -, deve-se ponderar que o modo antigo de despedir um falecido lembra um castigo do qual nenhum homem escapa. A existência de um homem deve ser lembrada e honrada com seriedade por seus familiares e amigos. Além disso, a grandiosidade da pompa funerária faz lembrar que a morte é, sobretudo, uma porta para a eternidade. E até o papel das carpideiras, com seu pranto profissional, se justifica, pois garantem uma nota de drama ao que é realmente dramático, e cuja trivialidade do cotidiano poderia desbotar. O modo cibernético de ver este acontecimento como que “democratiza” todas as crenças e costumes a respeito do momento supremo da vida; o falecido é tratado como alguém que partiu para uma longa viagem, do qual não se devem exaltar ou recriminar a vida e os feitos. Faz-se tábula rasa a respeito de sua conduta e do seu relacionamento humano.

Profunda diferença de mentalidade, de costumes, de civilizações. Em qual delas estaria o homem mais elevado em sua dignidade, em qual teria ele mais respeitados seus direitos humanos, naturais e sobrenaturais? Pensemos.

 

Elizabeth Kiran

Eternidade Feliz

Evangelho

17 Descendo com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sidônia. 20 Levantando os olhos para os seus discípulos, dizia: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. 21 Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir. 22Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, vos carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem. 23Alegrai-vos nesse dia e exultai, porque será grande a vossa recompensa no Céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas. 24 Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação. 25 Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis. 26 Ai de vós, quando os homens vos louvarem, porque assim faziam aos falsos profetas os pais deles” (Lc 6, 17 e 20-26).

As Bem-aventuranças enunciadas por Jesus mudaram o curso da História e marcaram o início de uma nova era: o Cristianismo. A crueldade do mundo pagão foi assim ferida de morte. E a doutrina da obediência à Lei requintou-se até alcançar um sublime grau: a prática do amor e o desejo de santificação. Neste artigo, o leitor encontrará um dos fundamentos do carisma dos Arautos do Evangelho.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

I – DIVINA PREPARAÇÃO PARA A EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA

Primeira etapa da formação: o convívio

Apesar de não serem dotados de razão e, portanto, incapazes de entender uma doutrina, os animais aprendem como se tivessem uma escola de ensino. Há entre eles um forte relacionamento instintivo, pelo qual uns transferem aos outros as experiências adquiridas.

As Bem-aventuranças
mudaram o curso
da História

(Jesus Abençoando,
igreja de Saint
Séverin, Paris)

Por exemplo, num determinado momento, a águia começa treinar seus filhotes a lançarem-se nas primeiras tentativas de vôo; a leoa transmite à sua cria lições práticas de caça; e os insetos são alvo do instinto materno da galinha, quando estimula seus pintainhos a encontrar alimentos.

Num plano superior, isto ocorre também com o homem, ser inteligente e possuidor de um nobre instinto de  sociabilidade. No colo da mãe, a criança recebe as primeiras lições: no modo de ser abraçada, beijada, acariciada… ela vai adquirindo as primeiras noções sobre o convívio social. Depois, no trato com os irmãos e parentes mais próximos, observando seus modos e costumes, ela assimilará o estilo próprio à sua família. E só muito mais tarde chegará a ocasião propícia para uma formação doutrinária e metódica.

Assim também procedeu Jesus com seus Apóstolos e com seu povo.

Os primeiros passos para a fundação da Igreja

Já havia o Salvador pregado nas sinagogas da Galiléia, “e era aclamado por todos” (Lc 4, 15); multiplicava maravilhas por onde passava, expulsava os demônios dos possessos a ponto de levantar a interrogação: “Manda com poder e autoridade aos espíritos imundos, e eles saem?” (Lc 4, 36); curara a sogra de Pedro e um incontável número de outros enfermos (Lc 4, 38-41); operara a inesquecível pesca milagrosa (Lc 5, 1-7); quebrando todos os padrões multisseculares, tocara num leproso, tornando-o são (Lc 5, 12-14); e perdoava os pecados (Lc 5, 18-20). Assim, devido a um convívio que se tornara assíduo, todos estavam já tomados pela exemplaridade de Jesus em seus mínimos detalhes.

Com a eleição dos doze Apóstolos, concluiu Jesus com chave de ouro a primeira fase do ensino. Tornava-se agora necessário expor sua doutrina de maneira metódica, a fim de conferir um embasamento lógico a todas as suas ações e ensinamentos.

E é nessa seqüência que se insere o Sermão da Montanha.

Com muita propriedade, a esse respeito assim se expressa Fillion: “A instituição do Colégio Apostólico e o Sermão da Montanha são fatos conexos e ambos têm elevadíssimo significado na vida de Jesus. Com razão são considerados como os primeiros passos para a fundação da Igreja. Com a eleição dos Apóstolos, procurava Ele auxiliares e preparava continuadores oficiais; ao pronunciar seu grande discurso, promulgava o que expressivamente tem-se chamado a Carta do Reino dos Céus” (1).

A pregação e o proceder de Jesus eram inéditos para a psicologia e mentalidade daqueles povos da Antiguidade. Por isso, não só para os judeus comuns, mas até mesmo para os próprios Apóstolos, era indispensável uma exposição estruturada do pensamento do Divino Mestre. Uns e outros estavam maravilhados, mas chegara o momento de Ele dar a conhecer de forma clara e sintética, sobretudo aos Apóstolos, a doutrina em função da qual se movia. Ademais, dada a progressiva dissensão entre Ele e os escribas e fariseus, fazia-se oportuna uma definição de programa, para assim se tornar efetiva a profecia do Velho Simeão: “Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição” (Lc 2, 34).

II – O MAIOR PARADOXO DA HISTÓRIA

Antes de nos aprofundarmos na análise das Bem-aventuranças, consideremos o grande paradoxo que representou, para a época, o Sermão da Montanha.

Os antigos gregos costumavam chamar de paradoxo ao enunciado (moral ou doutrinário) que contrariasse a opinião pública comum e corrente. E autores de grande fama afirmam ter sido esse Sermão o mais contundente, amplo e radical paradoxo havido até então.

Para melhor compreendermos o quanto Jesus abalou os fundamentos do paganismo na gentilidade e alguns desvios introduzidos nos costumes do próprio povo eleito, recordemos em rápidas pinceladas qual era o quadro social da Antiguidade, ao iniciar o Redentor sua vida pública.

Os costumes da Antiguidade

Pode-se facilmente encher páginas e mais páginas com fatos demonstrativos da degradação do mundo antes de Jesus Cristo. Limitemo-nos a alguns dados fornecidos pelo conceituado historiador J. B. Weiss. (2)

Diz ele:”Em toda a Antiguidade,a mulher é vista como um ser inferior. Seu valor é, segundo Aristóteles, pouco diferente do de um escravo. Sempre está submetida à tutela do pai ou do esposo (…) o marido tinha sobre ela direito de vida e de morte”.

E continua: “O pai era, não só o chefe, mas o déspota da família, e o filho era sua propriedade absoluta: podia vendê-lo até três vezes, podia matá-lo (…) A criança recémnascida era apresentada ao pai; se este a levantasse, ela seria criada; se a deixasse no solo, seria abandonada (…) seria lançada na água ou largada às feras no bosque. Na melhor das hipóteses, ficaria exposta em locais públicos, à disposição de quem quisesse educála para a escravidão ou a prostituição.”

Há entre os animais um forte relacionamento instintivo,
pelo qual uns transferem aos outros as experiências
adquiridas. Em certo momento, a águia e a leoa
começam a treinar seus filhotes para a caça

Não era muito maior o valor atribuído à vida do pobre: “O egoísmo levou o mundo antigo a desprezar a pobreza. (…) Platão opina que não é preciso preocupar-se com o pobre quando este fica enfermo, pois, não podendo mais trabalhar, sua vida de nada mais serve”.

Quanto aos escravos – mais de um milhão, só em Roma! – estes não tinham direito algum, podiam ser tratados como míseros sapatos velhos. “O romano (…) classificava assim os instrumentos: ‘uns são mudos, como o arado e o carro; outros emitem vozes inarticuladas, como os bois; o terceiro fala, é o escravo’.”

O gozo desenfreado da vida, em Roma, a tal ponto embruteceu os homens que, afirma Weiss: “Agora só o sangue os podia estimular. (…) O que mais agradava ao romano era ver morrer homens”. E dá alguns exemplos:

Numa representação teatral, incendiar uma casa para assistir à morte de todos os seus habitantes. Em outra, crucificar um chefe de ladrões e, vivo ainda, trazer ursos famintos para devorá-lo diante da assistência. Numa terceira, atirar um jovem do alto de uma torre, para a platéia vê-lo espatifar-se no chão.

Tudo isto, note-se, nas duas grandes civilizações da época: a grega e a romana. O próprio povo eleito tinha alguns costumes de crueldade inegável. Por exemplo, a escravidão de gentios, a pena de talião, o impiedoso tratamento dado aos leprosos, etc.

III – O MANDAMENTO DA PERFEIÇÃO

Esta era a situação do mundo pagão quando Jesus dirigiu aos seus discípulos e à grande multidão o Sermão da Montanha.

São Mateus desenvolve mais amplamente essa exposição doutrinária do Divino Mestre em seu capítulo 5º, terminando por uma síntese de toda a matéria no versículo 48: “Sede, pois, perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito.” Eis aqui a substância das Bem-aventuranças – assim como das maldições opostas – resumidas por São Lucas no Evangelho de hoje. Detenhamo- nos na sua consideração.

Ao criar a alma humana, Deus infundiu-lhe um forte anseio de felicidade. Daí o não ter havido, e nem haverá, quem nunca a tenha procurado. Sobretudo em épocas como a nossa, tão atravessada por dramáticas crises, apreensões e sofrimentos, torna-se ainda mais aguda essa veemente apetência.

Onde, porém, encontrá-la com inteira segurança?

Deus nada cria senão para Si. Por esta razão, fora d’Ele os seres inteligentes – anjos ou homens – não obtêm verdadeira felicidade a não ser cumprindo com a finalidade última para a qual foram criados. É sobre esta relação entre o homem e Deus que incide a grande promessa feita por Jesus: a de sermos bem-aventurados nesta terra e post-mortem, por toda a eternidade, no Céu.

“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação”

Nós cristãos, enquanto batizados, temos a obrigação de não perder o estado de graça. Se, por fraqueza ou maldade, dele nos vejamos privados, com diligência devemos procurar recuperá-lo. Essa é a chamada perfeição mínima.

No Sermão da Montanha, Jesus não nos impõe a obrigação de sermos perfeitos. Porém, manifesta o desejo de que o aspirar a esse estado constitua um dos pontos essenciais da nossa existência. Além disso, tantos foram os tesouros por Ele deixados à humanidade – o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, etc. – que, só por gratidão a tão imensos benefícios, já seria uma obrigação da nossa parte nos colocarmos a campo para atingir a meta enunciada por Jesus.

Com muita razão, a respeito da universalidade desse dever de santidade, assim se expressa João Paulo II: “É preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, o capítulo V da Constituição Dogmática Lumen Gentium, intitulado ‘Vocação Universal à Santidade’. (…) O dom [de santidade concedido à Igreja] gera, por sua vez, um dever que há de moldar a existência cristã inteira: ‘Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação’ (1 Tes 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas ‘os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade’ (…) Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objeto de equívoco, vendo nele um caminho  extraordinário, percorrível apenas por algum ‘gênio’ da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um” (3).

São Paulo é incansável em frisar a necessidade da perfeição sem limites, como substância da vocação do cristão: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a bênção espiritual do Céu em Cristo, assim como n’Ele mesmo nos acolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante d’Ele …” (Ef 1, 3-4). É comum, ao longo de suas Epístolas, encontrarmos uma verdadeira sinonímia entre os termos “cristão” e “santo”, tal era o seu empenho neste particular (4).

Deus é infinito. Portanto, quem é chamado a amá-Lo tem por fim último um Ser ilimitado. O amor nosso é uma potência criada com aspiração por Deus, e por isso diz Santo Agostinho: “Nossos corações foram criados para Vós e só em Vós repousam”, ou seja, a própria potência do amor em si mesma visa o infinito. Por isso afirma São Francisco de Sales: “A medida de amar a Deus, consiste em amá-Lo sem medida”.

O próprio Jesus, com divina radicalidade, assim reforça o Mandamento dado a Moisés: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Mc 12, 30). Daí se conclui termos o dever de buscar o fim em toda a sua amplitude, e de empregar, para atingi-lo, todos os meios ao nosso alcance.

Só o sangue estimulava os embrutecidos espectadores dos espetáculos romanos

(Mosaico com cenas de Circo, Galeria Borghese, Roma)

Ademais, toda vida, também a sobrenatural, é suscetível de progresso, e tem em si uma força dinâmica que busca seu desenvolvimento. No que diz respeito ao nosso corpo, esse processo se verifica instintiva e prazeirosamente. Quanto ao espírito, porém, é indispensável a aplicação de nossa inteligência e de nossa vontade, a fim de cooperarmos com a graça de Deus.

IV – AS BEM-AVENTURANÇAS

Feitas essas considerações, passemos a analisar com vagar os diversos versículos do Evangelho deste domingo.

Descendo com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sidônia (v. 17)

De todas as partes acorriam os enfermos e curiosos, uns para serem libertos de seus males, outros para comprovar a realidade da fama de Jesus, que se espalhara.

E por que não subiram todos para encontrar-se com Jesus no cimo do monte? São Beda, o Venerável, assim nos explica: “Rara vez se observará que as turbas tenham seguido Jesus até as alturas, ou que Ele tenha curado algum enfermo no cimo de monte; senão que, uma vez curada a febre das paixões e acesa a luz da ciência, devagar sobe-se até o cume da perfeição evangélica” (5). Por isso o Divino Mestre desce com os Apóstolos recém-eleitos para estar com a multidão que O aguardava.

Levantando os olhos para seus discípulos… (v. 20)

São variadas as interpretações dos autores a propósito desse gesto de Jesus. Pela própria narração de Lucas, tem-se a impressão de estarem os discípulos localizados num plano mais alto que o da multidão e como talvez desejasse oferecer àquela gente um certo exemplo, apesar de estar falando a todos, fixa seu olhar nos Apóstolos.

“Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (v. 20).

A pobreza é citada em primeiro lugar por ambos os evangelistas, por ser a mãe das outras virtudes. Como poderia, aliás, alguém entrar no Reino dos Céus possuído do amor a este mundo e aos seus bens?

Quem é considerado “pobre”, segundo o Evangelho? Lázaro possuía uma das maiores fortunas de Israel, entretanto era pobre de espírito. E, em sentido oposto, Judas por sua ganância, apesar de pouco ou nada possuir de bens materiais, foi traidor por ser “rico” (de espírito).

Matéria não faltaria para escrevermos um longo tratado sobre este versículo 20, e numerosos são os autores conceituados que discorrem com precisão de conceitos a respeito dessa bem-aventurança. Para os efeitos deste artigo, basta focalizar o quanto a riqueza ou a pobreza devem ser assumidas como meios de atingir a santidade. O importante não é ter ou não dinheiro. A questão se põe em como dispor dele para adquirir o “Reino de Deus”.

O grande mal de todos os tempos é o de almejar a fortuna por puro gozo da vida, e não para melhor servir a Deus. E, debaixo desse prisma, não vem ao caso ser rico ou pobre, porque o primeiro desprezará o segundo, este invejará o outro e ambos incorrerão na sentença contida no versículo 24: “Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação”.

Por essa razão, é absolutamente preferível nada possuir, a cometer um pecado, ou até mesmo, a esfriar na piedade.

Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados (v. 21)

O Evangelista apõe a esta bem-aventurança a maldição contra os que vivem na fartura, porque virão a ter fome: “Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome” (v. 25). De onde conclui o famoso Cornélio a Lápide que, aqui, trata-se realmente de fome de alimentos, e não apenas algo espiritual.

Lázaro possuía uma das maiores fortunas
de Israel, entretanto era pobre de espírito

(Ressurreição de Lázaro, catedral
de Autun, França)

É este o mais alto grau desta bem-aventurança: suportar com resignação cristã – portanto, sem revolta, sem inveja e sem ódio – os sacrifícios decorrentes da pobreza material, isto torna o pobre um bem-aventurado.

Por outro lado, também são bem-aventurados os que têm fome de Deus. A estes últimos, Deus alimentará com a sua graça, com mais abundância, na medida do desejo de perfeição. É uma “fome”, afirma Cornélio a Lápide, que ao mesmo tempo alimenta até à fartura, pois no Céu seremos saciados de felicidade e glória.

Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir (v. 21)

Os pecadores encontram sua falsa felicidade na transgressão da lei de Deus. A estes adverte Jesus severamente, porque no dia do Juízo hão de chorar sua condenação eterna: “Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis” (v. 26). Ademais, ainda nesta terra, apesar de sua aparente alegria, vivem de tristeza, pois a consciência continuamente os acusa de suas faltas. Ao prazer decorrente do pecado sempre se segue o remorso pela falta cometida.

Mas aqueles que choram de arrependimento pelos próprios pecados, já encontram, na sua contrição, consolo e felicidade. A experiência nos ensina que o arrependimento traz alegria, e é fruto da graça de Deus.

Também os que suportam com paciência as dificuldades são bem-aventurados, já nesta vida. Pois, embora sofram e “chorem”, a paciência alcançada com a graça de Deus os envolve de suavidade e paz de alma. Pelo contrário, os que se mostram inconformados nas adversidades, esses carregam no coração uma profunda amargura.

“Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, vos carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos nesse dia e exultai, porque será grande a vossa recompensa no Céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas. (v. 22-23)

No ser humano, o instinto de sociabilidade é mais profundo e sensível que o de conservação. São numerosos os homens que enfrentam grandes perigos, e a própria morte, mais por pressão da sociedade, pelo medo do ridículo, de serem tidos por covardes, do que por autêntico heroísmo.

As perseguições violentas contra a Igreja, ao longo da História, povoaram o Céu de mártires e fazem pasmar de admiração o mundo inteiro. Às perseguições morais, é menor o número dos que resistem. No mundo de hoje, quantos perdem a Fé, por não agüentarem a pressão do ambiente de ateísmo prático que os envolve? E por isso, em nossos dias, talvez seja mais meritório proclamar a Fé diante do riso irônico de um círculo de pseudo-amigos, do que o era ante o rugido das feras no Coliseu, nos primeiros tempos do Cristianismo.

Por vezes, pior ainda do que a perseguição dos maus, é a incompreensão dos bons.

Mas, “ai de vós quando os homens vos louvarem”, acrescenta Nosso Senhor, porque este seria o sinal de nossa falta de integridade, pois o mundo só aceita as meias verdades e a virtude frouxa, nisso empregando uma forma encoberta e mais cômoda de praticar o mal.

Jesus começa o enunciado das bem-aventuranças com a promessa do Reino dos Céus, e com ela termina, para dar a entender que também com a prática das demais se alcança o mesmo prêmio, deixando subentendido o quanto elas são interligadas. Não basta praticar uma delas isoladamente, desprezando as restantes.

V – O SERMÃO DA MONTANHA NOS DIAS DE HOJE

Fundada a Igreja, com sua progressiva expansão e penetração nas capilaridades das sociedades daqueles tempos, Deus e sua lei foram colocados no centro da vida humana, numerosos foram os que passaram a praticar os conselhos  evangélicos e uma nova era brilhou sobre a terra, a do Cristianismo.

Judas, por sua ganância, apesar de pouco
ou nada possuir de bens materiais,
foi traidor por ser “rico” (de espírito)

E hoje, o que é feito dessa era? O terrorismo ameaça, os seqüestros se alastram, o roubo de crianças prolifera, o comércio de órgãos humanos se avoluma, o crime, os vícios e o desrespeito se impõem; assistimos quotidianamente à expansão de ódios, guerras intestinas e internacionais, matanças de inocentes, ao desaparecimento gradual e progressivo do instituto da família… Enfim, quanto mais haveria para enumerar! Não estaremos nós vivendo agora dias piores do que os da Antiguidade?

E por que o Sermão da Montanha não produz, hoje, os mesmos efeitos de outrora?

As raízes dos males atuais são idênticas às dos horrores da época de Jesus, que sinteticamente assim se poderiam enunciar: “a finalidade última do homem se cumpre nesta terra, por isso ele deve fruir todos os prazeres que a vida e este mundo lhe oferecem, pois Deus não existe”. Assim sendo, continua válido – e mais do que nunca – na sua integridade, o Sermão da Montanha.

Qual, então, a razão dessa insensibilidade?

Falta à humanidade uma graça eficaz que a faça, como o Filho Pródigo, ter saudades da casa paterna e querer retornar às delícias das consolações de quem ama verdadeiramente a Deus, seus Mandamentos, e ao próximo como a si mesmo.

Quiçá, depois de uma divina intervenção, melhor compreendendo e amando o Sermão da Montanha, a humanidade, convertida, abrace como nunca a perfeição e se torne realidade, assim, a profecia enunciada por Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”

1) L.-Cl. Fillion, Vida de Nuestro Señor Jesucristo, Ed. Voluntad, Madrid, 1926, t. III, p. 56.
2) J. B. Weiss, Historia Universal, Vol. III, pp. 652-657. 3) Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, 30-31.
4) Veja-se, por exemplo, Ef 4, 13; e 1 Tess 4, 3 e 7.
5) Apud S. Tomás de Aquino, Catena Áurea, in Lucam.

(Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro/2004, n. 26, p. 6 à 12)

 

Pe. João Clá Dias